terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Subsistema Longitudinal Profundo

Começando uma série de artigos sobre os subsistemas, escrito pelo Brent Brookbush, o cara tem um site muito bom com vários artigos bem detalhados. O site é pago, mas se procurar tem alguns artigos disponíveis sem custo.
Aos que quiserem conferir: Brookbush Institute


Essa ideia de sinergias musculares formando uma unidade coesa não é nova, Paul Chek já mencionava isso há bastante tempo (Podem conferir este artigo traduzido há um bom tempo, que coloquei aqui neste espaço: A Unidade Externa), não sei se ele é o cara que propôs está ideia e nem quem é de fato o criador, mas o fato mais importante é que essa ideia nos permite uma fácil visualização da anatomia funcional e das interações musculares durante o desempenho de diferentes tarefas.

Os subsistemas são um dos temas do Curso do Método NKT - Nível 2, onde aprendemos de que maneira podemos avaliá-los e usar esses dados para melhorar o movimento e a performance, diminuir o risco de lesões ou para tratar dores (crônicas ou recentes), dependendo de quem é este profissional e de que maneira ele trabalha. Não por acaso o autor do artigo é um praticante do Método NKT.  

Lembrando que nenhum desses subsistemas opera sozinho, todos interagem o tempo todo durante as diferentes atividades que executamos.  

Aos que quiserem ler o artigo original: Deep Longitudinal Subsystem

Boa leitura aos amigos!




Subsistema Longitudinal Profundo

Brent Brookbush


O Subsistema Longitudinal Profundo é composto por:

  • Eretor da espinha (contralateral; em relação aos outros elementos)
  • Ligamento sacrotuberoso
  • Bíceps femoral
  • Cabeça da fíbula
  • Fibular longo
  • Tibial anterior


(N.T: Em muitas definições este subsistema é composto somente por: Bíceps femoral, ligamento sacrotuberoso e eretores da espinha contralaterais, como na imagem abaixo)
De cima para baixo: Eretores da espinha (do lado contralateral); Bíceps femoral; Ligamento sacrotuberoso; Articulação sacroilíaca


Função (resumida):

Estabilização do complexo lombosacral e arco longitudinal medial do pé, responsável pela desaceleração (ação excêntrica) da perna de balanço na marcha e controle da pronação/supinação do complexo pé/tornozelo, iniciando no contato do calcanhar com o solo e continuando através da fase de apoio do pé no ciclo da marcha. Esse subsistema é potencialmente o mecanismo primário de propulsão durante a caminhada de baixa intensidade, e durante atividades de alta intensidade é um mecanismo de comunicação proprioceptivo, mandando informações ao cérebro sobre as forças de reação do solo.


Artrocinemática Funcional:

Este subsistema desempenha um papel na estabilização do sacro e no alinhamento da articulação sacroilíaca através do ligamento sacrotuberoso, assim como, desempenha um papel no alinhamento artrocinemático do complexo pé-tornozelo (N.T: A artrocinemática, segundo Neumann 2010, é responsável por descrever o movimento entre as faces articulares de uma articulação. Então o alinhamento artrocinemático se refere ao posicionamento otimizado das estruturas envolvidas no movimento).

O bíceps femoral é praticamente contínuo ao ligamento sacrotuberoso, que por sua vez, se insere na camada mais profunda da fáscia toracolombar. O sistema continua através do eretor da espinha (N.T: Eretor da espinha do lado oposto). Esta continuidade desempenha um papel na estabilização da região lombosacra durante atividades da vida diária, na marcha e atividades esportivas. Quando se encontra hiperativo, este subsistema irá fazer com que haja uma dominância sinergística em relação ao glúteo máximo (N.T: Parte do Subsistema Oblíquo Posterior) durante a extensão do quadril, tendo como resultado a quebra da mecânica natural da região lombosacra.   
Quando o bíceps femoral contrai, esta força é transmitida através do ligamento sacrotuberoso, resultando em uma força de extensão no sacro. Se a contração do bíceps femoral resulta em uma inclinação posterior da pelve (por exemplo, durante a fase de balanço da marcha) o sacro irá seguir - em essência haverá um pouco de movimento na articulação sacroilíaca ipsilateral. No entanto, já que esse movimento acontece frequentemente ipsilateralmente
(N.T: Do mesmo lado), na marcha por exemplo, é importante notar que a extensão do sacro é frequentemente uma contranutação da articulação sacroilíaca contralateral relativa à uma pelve inclinada anteriormente. Comumente o bíceps femoral e o eretor da espinha se tornam sinergisticamente dominantes em relação a um complexo glúteo hipoativo (N.T: Aquela velha estória de que se um não faz seu trabalho, outro assume o fardo). Isso pode levar a problemas na articulação sacroilíaca, em que esta articulação se torna funcionalmente fixada em relativa contranutação no lado disfuncional. Isso também força a pelve contralateral em uma inclinação anterior relativa.  
(N.T: Os movimentos de nutação e contranutação podem ser vistos esquematicamente, em detalhes, no vídeo abaixo. Na nutação a base do sacro se move anteriormente; Na contranutação a base do sacro se move posteriormente, deixando-o em uma posição mais vertical)
video



Considerando o joelho:
- Embora o bíceps femoral possa ser visto como uma força que previne o deslizamento anterior da tíbia sobre o fêmur e previne lesões no ligamento cruzado anterior, ele só pode desempenhar bem seu papel se a atividade elétrica do músculo e seu comprimento são adequados, além de se ter uma artrocinemática normal da articulação tibiofibular proximal.

Infelizmente, esta musculatura é comumente hiperativa e a articulação tibiofibular proximal se encontra frequentemente "presa" posteriormente (relativa à articulação tibiofibular distal que está fixada anteriormente), como resultado de "Disfunção na Parte Inferior da Perna" (N.T: Se refere a uma classificação de disfunções que ele faz. Essa ele descreve neste artigo chamado: Lower Leg Dysfunction).
Quando hiperativo o músculo pode contribuir com disfunção no joelho ao criar um "momento" 
de adução e rotação interna no fêmur.(N.T: A palavra momento poderia ser substituída por "torque". O torque ou momento pode ser considerado como um equivalente de uma força linear. Enquanto a força empurra ou puxa um objeto de maneira linear o torque ou momento gira um objeto sobre seu eixo de rotação, Neumann 2010).  

Provavelmente é mais fácil visualizar esta ação em padrões de movimento de cadeia cinética fechada (relativo à uma tíbia fixa). No entanto, a rotação externa da tíbia é um movimento relativo à uma rotação interna do fêmur (N.T: Ou seja, o fêmur roda internamente sobre uma tíbia fixa. A tíbia não move, mas em relação ao fêmur que está em rotação interna, a tíbia está posicionada em rotação externa). A posição do bíceps femoral na parte lateral do joelho também contribui para criar um momento de adução; trazendo os aspectos laterais do fêmur e da tíbia mais próximos um do outro. Quando o pé e a tíbia estão fixos em uma posição de cadeia cinética fechada (N.T: Cadeia cinética fechada são movimentos com o pé no solo. Um agachamento por exemplo), um bíceps femoral hiperativo pode fazer com que o joelho colapse em valgo (N.T: Joelho para dentro) ao rodar internamento o fêmur e "aduzir" o joelho. Quando visualizar este movimento, pode ser útil imaginar a cabeça curta do bíceps femoral como uma "corda de um arco" ficando cada vez mais tensa e o fêmur e a tíbia como um arco dobrando fora de sua posição normal.



Considerando o tornozelo:
 - Este subsistema desempenha um papel significativo em manter o arco longitudinal do pé e/ou a pronação e supinação durante a marcha em resposta às forças de reação do solo - desempenhando seu maior papel durante a desaceleração excêntrica da pronação do momento do contato do calcanhar até o meio da fase de apoio. Disfunção no subsistema longitudinal profundo pode resultar em uma pronação precoce/excessiva, incapacidade de uma dorsiflexão adequada e uma força excessiva colocada nas articulações transversas tarsais e tarsometatarsais.


Isto acontece frequentemente em conjunto com um deslizamento anterior da articulação tibiofibular, inabilidade de um movimento posterior do tálus, deslizamento superior do primeiro cuneiforme sobre o navicular e excessiva flexão plantar do primeiro raio (N.T: Aos que quiserem saber mais sobre o primeiro raio da articulação metatarsofalangeana confiram a série de artigos sobre o hálux: Mobilidade do Hálux - Parte 1).
Primeiro raio da articulação metatarsofalangeana

Para mais informações confiram meu artigo: 
Lower Leg Dysfunction.


Função Integrada:

Funcionando de maneira ideal, o Subsistema Longitudinal Profundo desacelera (contração excêntrica) o balanço da perna e a pronação do pé, estabiliza a articulação sacroilíaca e o arco longitudinal do pé, e age como um mecanismo proprioceptivo para o pé/tornozelo e joelho, além de ajudar no posicionamento do complexo lombopélvico/quadril. Por exemplo, durante a marcha este subsistema desacelera excentricamente o balanço à frente da perna, seguido por uma inclinação da pelve e estabilização da articulação sacroilíaca, agindo como um mecanismo proprioceptivo para transmitir informações a respeito das forças de reação do solo ao contato do calcanhar, assegurando uma pronação adequada, mas não excessiva. Como produto da informação proprioceptiva relatada ao Sistema Nervoso Central, existe um recrutamento adequado dos motores primários durante o meio da fase de apoio e o incio da fase de balanço da marcha (N.T: Início da fase de balanço na marcha se dá quando o hálux sai do solo). Isto é especialmente verdadeiro durante atividades de alta intensidade e esta mesma função pode ser generalizada às atividades do membro inferior no treino de força: Como agachamentos, levantamentos terra, etc.  

Um fator contribuinte para disfunção, pode ser a falta de atividades de alta intensidade que vemos em nossa população. A despeito do glúteo máximo ser o motor primário durante a extensão do quadril, o corpo nem sempre recruta os motores primários para produzir movimento articular. Isso é referido frequentemente como "Lei da Parcimônia" em relação ao movimento humano. O corpo irá recrutar o menor número de unidades motoras a fim de tentar conservar energia. Com isto dito, existem alguns estudos que mostram o bíceps femoral como o motor primário da extensão do quadril durante a "marcha normal", com menor contribuição do glúteo máximo. Isto quer dizer, caminhar em uma cadência relaxada pode não ser de uma intensidade suficiente para requerer a ativação do glúteo máximo. 

Se um indivíduo nunca desempenha atividades de intensidade mais alta (caminhada rápida, exercício, esportes) existe uma chance de começar a perder a habilidade de recrutar um melhor programa motor para atividades de alta intensidade?
Reforçando a dominância sinergística do Subsistema Longitudinal Profundo em relação ao Subsistema Oblíquo Posterior (N.T: O glúteo máximo é parte do subsistema oblíquo posterior).   


Comportamento Motor:

O subsistema longitudinal profundo pode ser apelidado de "Subsistema sempre Hiperativo". Este subsistema torna-se reflexivamente hiperativo em resposta a problemas da articulação sacroilíaca, coluna lombar, articulação tibiofibular, tibiofemoral e complexo pé/tornozelo.
Aparece comumente pareado com hipoatividade (N.T: Atividade abaixo do normal) de 2 subsistemas:
- Subsistema de Estabilização Intrínseca.
- Subsistema Oblíquo Posterior. 
E também pareado com hiperatividade de outro subsistema:
- Subsistema Oblíquo Anterior.
Também aparece hiperativo em disfunções na parte inferior da perna e complexo lombopélvico/quadril.

Em Disfunções no Membro Superior:Falando em termos gerais, este subsistema não é relacionado com estas disfunções, no entanto quando disfunções no membro superior resultam em problemas na sacroilíaca, o subsistema longitudinal profundo pode tornar-se reflexivamente hiperativo.

Em Disfunções no Complexo Lombopélvico/Quadril:
O subsistema longitudinal profundo é sinergisticamente dominante em relação à um subsistema oblíquo posterior hipoativo.

Em Disfunções da Parte Inferior da Perna:O subsistema longitudinal profundo é hiperativo. Pode ser observado a pronação do pé, adução e rotação interna do fêmur e contra-nutação do sacro como resultado da ação concêntrica desse subsistema e a "caracterização" de um modelo previsível de disfunção da parte inferior da perna. 

Em Disfunções da Articulação Sacroilíaca:
Este subsistema torna-se incrivelmente hiperativo no lado disfuncional da sacroilíaca, e pode não retomar sua atividade normal até que a sacroilíaca seja mobilizada.

O subsistema longitudinal profundo é frequentemente o elo entre disfunção na parte inferior da perna, disfunção na articulação sacroilíaca e dor lombar.


Subsistemas, Disfunção Postural e Seleção de Exercícios Integrados:

Os resumos abaixo são destinados à uma referência rápida, na prática, e não ilustram todos os possíveis cenários. 


Atividades dos Subsistemas Baseado na Disfunção Postural:


Efeito no Exercício:


Resumo:



Seleção de Exercícios:

Se a avaliação de movimento nos leva a crer que o Subsistema Longitudinal Profundo é hiperativo, considere as seguintes mudanças no seu programa de exercícios.

Núcleo:
(N.T: Tradução de "Core")
- Sem fortalecimento dos isquiotibiais.

Flexibilidade:
     Liberação:
  • Eretores da coluna (se usar autoliberação, liberar somente na área da torácica).
  • Bíceps femoral.
  • Fibulares.
  • Piriforme (se existe suspeita de problema na sacroilíaca).
     
     Alongamento
(N.T: Os nomes dos alongamentos estão em inglês porque essa questão de nomenclatura de exercício é complicada, cada um chama como quer). 
  • "Child's Pose" (Eretores da coluna). (N.T: O que muitos aqui chamam de "Alá", aquela posição sentado nos calcanhares estendendo os braços À frente).
  • Pigeon Toed Calve Stretch (Fibulares). (N.T: Alongamento com os pés para dentro, por isso a referência à pombo: pigeon em inglês).
  • Active Biceps Femoris Stretch. (N.T: Alongamento ativo do bíceps femoral).
     
     Mobilização:
  • Coluna torácica.
  • Rotação do tronco deitado (automobilização da sacroilíaca).



Integração dos Subsistemas/Seleção de Exercícios Globais:

  • Integrar Subsistema Oblíquo Posterior. 


Treino Resistido:

  • Não fazer exercícios isolados para posterior da coxa (isquiotibiais).
  • Não fazer levantamento terra com os joelhos retos, ou quase retos (N.T: O que chamam no Brasil de stiff).
  • Não fazer windmill com kettlebell.

9 comentários:

  1. Muito bom Marcus!!!!!!
    Estou começando a entender os subsistemas ctg. Obrigada!!!!
    Krishna

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    1. Valeu Krishna, muito útil esse conhecimento dos subsistemas, sobretudo para nós que somos praticantes do NKT.

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  2. O que é subsistema de estabilização intrinsica prof? Poderia me responder? Tem haver com as síndromes cruzadas do autor Janda ?

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    1. Não Chico, é apenas outro dos subsistemas. Fique tranquilo que esta semana já posto um artigo sobre ele, fechando a série.

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  3. bom dia professor marcus. o subsistema intrínseco refere se aos músculos mais profundo de estabilização? e ótimos trabalhos que vem escrevendo.

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    1. Sim Emanoel, refere-se aos músculos profundos de estabilização.

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  4. A inibição neuromuscular em um determinado musculo (relação inibido/facilitado), quando devidamente estimulada (ativar inibido e soltar o facilitado) nao pode criar uma nova reprogramação motora, e , assim, uma nova inibição ou facilitaçao em algum subsistema? Por exemplo, o gluteo, uma vez inibido,ao ser novamente ativado irá receber uma "carga" de atividades que ate entao estava sendo compensado por outro musculo, como por exemplo, o qudrado lombar ou o psoas. Essa nova sobrecarga no gluteo, com ele ainda nao acostumado (ja que estava inibido) levará a um quadro de hiperatividade do mesmo, o que pode causar uma nova inibição em algum musculo ou subsistema. Enfim...como trabalhar essa questao?

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    1. A ideia de resolver estes desequilíbrios é criar uma nova programação motora em tese. Criar uma relação mais equilibrada em termos de ativações musculares, digamos assim. Difícil prever de que maneira essa nova programação (em termos de relação de ativação muscular entre os músculos envolvidos) vai afetar o todo. A ideia é que crie uma resposta positiva no conjunto, para saber se esse será o caso (ao meu ver) depende do que for avaliado para além de SOMENTE os testes musculares. Cada vez mais tenho estabelecido parâmetros para além dos testes musculares, não confiando APENAS na mudança ocorrida com os testes musculares. Se a minha atuação muda apenas os testes musculares (digamos, o glúteo que estava inibido passa a testar ativo, mas não muda os outros parâmetros estabelecidos (digamos a redução do desconforto do joelho no agachamento / o alinhamento entre pelve e gradil costal no agachamento / o tronco continua inclinado demais a frente no agachamento) eu sei que o meu trabalho está incompleto.

      Quanto ao teu exemplo em específico, é muito difícil ver isso acontecer, determinados músculos invariavelmente tenderão a um determinado comportamento: transverso do abdome, glúteo máximo, serrátil anterior sempre tenderão à inibição. Enquanto que: elevador da escápula, peitoral menor sempre tenderão à facilitação/hiperatividade.

      Mas tudo é uma questão de avaliar cada situação e achar as ferramentas avaliativas mais eficientes para lidar com os problemas, e essa é a resposta à tua pergunta final "como trabalhar essa questão?" Essa é uma busca que nunca termina, estudar, fazer cursos, trocar experiências com colegas, para ser cada vez mais eficiente e certeiro na resolução dos problemas.

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  5. o que seria mobilizar? algum video com exemplo? E pra que serve essa estratégia?
    liberacao,alongamento e mobilizacao nessa ordem sempre e antes do treino? obg

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