sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Usando o FMS com Equipes – Parte 2

Usando o FMS com Equipes – Parte 2.
Mike Boyle



Influência do FMS no processo de raciocínio:

Os conceitos obtidos do Functional Movement Screen reforçam tudo aquilo em que acreditamos, além disso, acrescentou um novo nível ao processo de pensamento sobre aquilo que fazemos. O conhecimento obtido de Gray e das análises realmente levou nosso processo de pensamento a novos níveis. Quando eu encontrei Gray pela primeira vez, ele pregava a ideia de “estabilidade antes de mobilidade”.

Do ponto de vista do desenvolvimento de progressões de exercício, foi uma das coisas mais inteligentes que eu já ouvi. Começamos a projetar todas as nossas progressões do treinamento de força para desenvolver estabilidade primeiro e então progredir para mobilidade. Também iniciamos a desenvolver todas nossas progressões para desenvolver mobilidade, mas somente nas articulações certas.

Em certo sentido nossa abordagem de treinamento funcional tornou-se de certo modo “anti-funcional”. Queremos usar o que apelidamos de “Abordagem Articulação por Articulação” para simultaneamente perseguir estabilidade em algumas áreas (joelhos e coluna lombar) e mobilidade em outras (tornozelos, quadris e coluna torácica). Ao mesmo tempo Gray continuou a desenvolver maneiras simples de distinguir entre problemas de mobilidade e problemas de estabilidade. Em termos simples um problema consistente é um problema de mobilidade. O melhor exemplo é o agachamento. Se um atleta é incapaz de desempenhar um agachamento overhead (N.T: acima da cabeça seria o termo em português, acho),
ou qualquer outra modalidade de agachamento, mas na base supinada (deitado de costas), consegue flexionar os quadris acima de 90º e manter a coluna lombar plana, então este atleta tem um problema de estabilidade. Em outras palavras a presença de mobilidade em um movimento sem carga combinado com a perda de mobilidade contra a gravidade claramente indica um problema de estabilidade. O inverso seria um problema de mobilidade. Isto é mais bem ilustrado por um atleta que não consegue ficar na posição de um agachamento overhead de pé ou deitado de costas. No primeiro exemplo o atleta é capaz de demonstrar amplitude de movimento, mas é incapaz de controlá-lo. No segundo exemplo (um problema de mobilidade de verdade) o atleta ou cliente simplesmente não tem a mobilidade necessária para realizar o movimento. A falta de capacidade de controle leva a uma aparente perda de mobilidade. Esta é a essência de como a estabilidade afeta a mobilidade. Com efeito, o corpo não permite movimento se ele não consegue controlá-lo. O controle é adquirido diminuindo a amplitude de movimento.

A simples lição é que um problema inconsistente (amplitude de movimento passivo adequada, amplitude de movimento ativo inadequada) é um problema de estabilidade. Um problema consistente de amplitude de movimento é uma questão de mobilidade pura.

O ponto chave é que problemas de estabilidade não serão resolvidos com trabalho de mobilidade. Por outro lado o trabalho de mobilidade provavelmente irá ”aumentar” os problemas de estabilidade.

(N.T: Na frase em negrito coach Boyle usa a palavra enhance que pode significar além do aumentar, melhorar. Isto daria um significado totalmente diferente a frase, ficaria assim: Por outro lado o trabalho de mobilidade provavelmente irá melhorar os problemas de estabilidade.
Fiquei na dúvida, traduzi o enhance como aumentar, porque acho que ele quer dizer que simplesmente trabalhar a mobilidade sem trabalhar no controle do movimento –estabilidade– provavelmente pioraria as coisas. Os que discordarem, postem seus comentários. Esta é a frase original: The key point is that stability issues will not be solved by mobility work. In contrast mobility work will probably enhance stability problems.)


Desenvolver Progressões

A chave para usar o Functional Movement Screen é planejamento e resultados, é pegar a informação obtida e usar essa informação para desenvolver progressões de exercícios. Com a finalidade de fazer isso é preciso pensar à respeito de padrões de movimento e usar o conceito de estável para móvel. Se você está confuso, tudo bem, continue lendo.


Progressões de Movimento ou Progressões de Exercícios?

A diferença fundamental reside na compreensão dos conceitos de mobilidade e estabilidade e como esses conceitos aplicam-se diferentemente para progressões de movimento do que para progressões de exercício. Você provavelmente está dizendo que “exercício é movimento” e eu concordo. No entanto, para o movimento, pense a respeito de amplitude ativa de movimento sem cargas externas. Para exercícios (treinamento de força) pense em movimentos para os quais se pretende adicionar cargas externas além do peso corporal. Para movimento, a mobilidade adequada precisa preceder o desenvolvimento de estabilidade. Para as progressões de exercícios no treinamento de força o atleta precisa ser estável antes de adicionar movimento (ex: ações multiplanares).


Cook atualmente usa o seguinte continuum (de Gray Cook):

MOBILIDADE – antes – ESTABILIDADE – antes – MOVIMENTO

Os atletas precisam desenvolver a mobilidade apropriada. Quando são móveis eles podem mover-se na posição apropriada para desenvolver estabilidade. Mobilidade e estabilidade podem ser adicionadas aos movimentos (exercícios).


O continuum real é o seguinte:

Mobilidade – liberdade de movimento em segmentos móveis. O termo geralmente inclui amplitude de movimento articular e flexibilidade muscular/tecido.

Estabilidade – habilidade de controlar o deslocamento em um segmento em particular na presença de uma força, tensão, carga e movimento. A estabilidade é composta de 2 níveis progressivos de controle:
• Estática – Controle isométrico de todas as direções enquanto está sob carga ou tensão.
Exemplo: Os ombros em um levantamento terra, os quadris em um chop ou lift ajoelhado.

• Dinâmica – Controle do alinhamento e integridade articular em uma determinada direção ou plano de movimento.
Exemplo: Os quadris em um levantamento terra ou agachamento (extensão sem perder o alinhamento do quadril). Cintura escapular em um chop ou lift (embora o úmero se mova através dos três planos a escápula é mantida no terço médio do seu movimento).

Movimento – O ato combinado de controle e postura na presença de padrões ativos e reativos de manipulação (mover coisas) e locomoção (mover a si mesmo). Este é o ponto onde mobilidade controlada e estabilidade dinâmica vem junto com outros atributos da aptidão física como: potência, força muscular, velocidade, resistência, etc. Movimento = Função.

Neste continuum – Mobilidade vem primeiro porque você não pode ter controle (estabilidade) se a liberdade de movimento não está presente. Rigidez pode ser confundida com a estabilidade se a liberdade de movimento não está presente. Estabilidade estática precede a estabilidade dinâmica. Estabilidade dinâmica precede o movimento.

Em todos os casos a chave é aprender a seguir padrões. Se queremos controlar o excesso de movimento em um exercício então precisamos inicialmente eliminar fontes potenciais de movimento. A idéia de Gray Cook foi usar posturas de transição. Em outras palavras, muitas progressões de exercícios do treinamento de força iniciam em uma postura ajoelhada, meio ajoelhada, ou em base alternada (N.T: ou chamada de base anteroposterior). O processo de pensamento é simples, se você quer que um atleta ou cliente desenvolva controle ou estabilidade em uma articulação em particular (como a coluna lombar) então isso será mais fácil se eliminarmos as articulações do joelho e do tornozelo e iniciar em uma postura ajoelhada. Cada postura tem benefícios. Ajoelhado (sobre os joelhos com os quadris estendidos) criará grande ênfase nos glúteos já que eles não são mais necessários no controle do joelho, somente do quadril. Meio ajoelhado (um joelho no chão, um joelho alto) flexiona um lado do quadril e como resultado restringe movimento na coluna lombar. Em nossas progressões de exercícios tendemos em favor de uma postura ajoelhada como ponto de partida para nossos atletas. Por outro lado, a postura em pé (N.T: ou base simétrica) gera o maior número de problemas já que existem mais articulações a serem controladas. Sempre progredimos para base simétrica como nosso objetivo final, mas geralmente iniciamos em base ajoelhada, meio ajoelhada ou em base assimétrica.

Vejamos este padrão diagonal para ilustrar o conceito acima. A progressão do exercício inicialmente enfatiza a estabilidade e a progressão é um aumento da mobilidade.



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Lift Estabilidade ½ Ajoelhado:
Este é um padrão puxa-empurra, feito com uma barra ligada ao cabo. O movimento ocorre primariamente nos ombros e cotovelos enquanto o core permanece estável.



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Lift Sequencial ½ Ajoelhado:
No lift sequencial ½ ajoelhado é adicionada uma rotação do ombro e uma corda substitui a barra. O padrão é claramente um puxa-empurra mas uma rotação do ombro é adicionada. A rotação no ombro é defendida por Shirley Sahrmann (N.T: Fisioterapeuta, autora do excelente: Diagnóstico e Tratamento das Síndromes de Disfunção dos Movimentos) para estimular o movimento na coluna torácica ao invés de movimento na coluna lombar.
Nós o chamamos de lift sequencial porque ele é ensinado inicialmente como uma ação em 3 partes:
Passo 1: ação de puxar semelhante à uma remada em pé diagonal.
Passo 2: uma ligeira rotação dos ombros.
Passo 3: empurrar na diagonal.
Isto é ensinado de forma sequencial para que o atleta ou cliente possam gravar a ação Puxa – Roda – Empurra. É importante notar que alguma mobilidade tem sido adicionada à coluna torácica através da rotação do ombro.



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Lift Dinâmico (lift em pé):
O terceiro exercício da progressão é o lift em pé. O lift em pé agora inicia em um agachamento diagonal e termina em uma ação de empurrar. O exercício se move da ação um tanto mecânica do lift sequencial para um movimento muito fluido, mais como um levantamento olímpico (N.T: alguns realmente chamam esse exercício de push-press diagonal ou rotacional, como o meu amigo Prof. Alexandre Franco). A idéia é a de que o padrão de puxar – empurrar já tenha sido apropriadamente aprendido e o controle do core estabelecido. A chave novamente é adicionar mobilidade já que os quadris e os joelhos tornam-se partes da ação (N.T: Eu daria minha humilde colaboração e acrescentaria tornozelos também).



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Step Up Lift:
O último estágio da progressão é adicionar uma dimensão unilateral. A ação unilateral adiciona um componente de estabilidade pélvica.

É importante notar que a progressão foi de um exercício de estabilidade do core até um exercício unilateral de potência dinâmico para o corpo todo. Esta é a beleza de usar a informação obtida de Gray Cook e do Functional Movement Screen para desenvolver progressões de exercícios. A idéia não é mais sobre como corrigir com a análise, mas ao invés disso, trabalhar mais globalmente para um melhor desenvolvimento, progressões integrando estabilidade rotacional. Cook tem defendido o chop e o lift como excelentes progressões para corrigir assimetrias e aumentar a estabilidade. Nosso trabalho como treinadores é desenvolver progressões a partir de um processo de pensamento. Pensamentos sem progressões de exercícios são simplesmente pensamentos.


Não adicione Força sobre Disfunção

Outra área onde o processo de pensamento de Cook nos dá uma visão interessante é a respeito da seleção de exercícios. Anteriormente foi ilustrado como o processo de raciocínio pode ajudar a desenvolver progressões de exercícios, agora vemos que esse processo de raciocínio pode também ajudar-nos a selecionar exercícios. Cook frequentemente declara “não adicione força à disfunção”. A maioria de nós ouve essa declaração e pensa “O que isto quer dizer?”. O que Cook está dizendo é simplesmente, se você não consegue agachar, não agache. Em outras palavras, um atleta ou cliente que não consegue desempenhar um agachamento overhead (N.T: do original overhead squat, algo como agachamento com as mão acima da cabeça) com um escore mínimo de 2, não deveria estar agachando.


Agachamento Escore 2:

Em essência, se permitirmos que eles façam isso, estamos simplesmente colocando força sobre disfunção. O atleta ou cliente ainda tem um padrão de movimento ruim, mas o padrão ruim agora pode ser demonstrado com carga externa. Este é um erro comum de treinadores universitários e escolares de futebol americano, e pode ser a raiz de muitas queixas de dores nas costas por parte dos atletas. Um atleta que não agacha bem é encorajado por um bem intencionado treinador a “ficar forte”. Ao invés disso, a ênfase inicial deveria ser “tornar-se móvel” ou “aperfeiçoar seu padrão de agachamento”. No entanto, muito poucos treinadores o fazem, ao invés disso eles simplesmente adicionam força sobre disfunção.

Nossa abordagem atual é inicialmente trabalhar em mobilidade para obter ou desenvolver o padrão de agachamento. Isto significa que a única modificação será elevar os calcanhares para melhorar a posição. Nossa percepção é de que se você não consegue agachar baixo, não agache pesado. Ao invés disso, trabalhamos em mobilidade e simultaneamente em força unilateral de membros inferiores. Esta é simplesmente uma questão de risco-benefício. Sobrecarregar padrões disfuncionais pode levar somente à lesões já que o corpo tenta administrar a sobrecarga aplicada a um sistema falho e frágil. Gray ilustra isso, às vezes com a idéia de “Difícil X Benéfico”. Um exercício pode ser difícil, mas isto não significa que ele é benéfico. Além disso, difícil pode frequentemente, mas não sempre, não ser seguro.

O In-Line Lunge é um Lunge?
(N.T: aqui é meio difícil de traduzir já que eu tenho transcrito o nome dos testes do FMS mantendo o nome original em inglês. Seria mais ou menos: O Avanço em Linha é um Avanço?)

In Line Lunge

Há uma pequena área em que eu discordo de Gray. Nós adicionamos o teste do agachamento unilateral em nossa versão do Functional Movement Screen. Gray adverte contra isso mas, como eu disse no começo do artigo, somos livres para escolher. Eu penso que o In Line Lunge deveria ser batizado como base assimétrica (N.T: ou base anteroposterior, como preferirem). O In Line Lunge não é um lunge, ele é um agachamento de base alternada por definição. O agachamento de base alternada é o que nos referimos por exercício estático. Em outras palavras, o pé não move. O lunge tem movimento, e seria classificado como um exercício dinâmico. O lunge tem um componente transicional. Penso que Gray pretendia olhar para um padrão unilateral de membros inferiores e o “In Line Lunge” realiza isso. No entanto, nós adicionamos o agachamento unilateral porque padrões unilaterais com suporte, como o agachamento de base alternada ou o In Line Lunge do Cook, são distintamente diferentes do agachamento unilateral. O agachamento unilateral é o que classificaríamos como um exercício estático sem suporte. As implicações pélvicas que vemos no agachamento de base alternada versus o agachamento unilateral são bem diferentes, então nós fazemos os dois.

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