quarta-feira, 6 de abril de 2016

Sequência Neurodesenvolvimental

Artigo do site da Editora On Target Publications, não está claro o autor, por isso vai o nome da editora no espaço destinado a este, embora eu suspeite que o artigo é do Gray Cook pelo estilo de conteúdo. Como não tenho certeza deixei o nome da editora mesmo.

Como de costume, inseri algumas notas e figuras que não estavam no artigo original, aos que quiserem lê-lo em inglês, aí vai o link:
Why is the Neurodevelopmental Sequence Important to Trainers





Porque a Sequência Neurodesenvolvimental é Importante para os Treinadores

On Target Publications


A sequência neurodesenvolvimental é a progressão normal do desenvolvimento motor que as crianças seguem à medida que crescem e desenvolvem a habilidade de rolar, engatinhar, ficar em pé, caminhar e muito mais.

A mesma sequência fornece um guia aos profissionais da reabilitação, uma progressão lógica de posturas e estratégias de movimento a seguir.

Infelizmente, muitos profissionais da reabilitação frequentemente colocam as pessoas de pé sem primeiro fazer com que elas dominem as posturas e estratégias de movimento de etapas desenvolvimentais mais básicas. Muitos profissionais do mercado não estão conscientes da sequência normal. Uma melhor consciência definitivamente iria ajudá-los com progressões/regressões de exercícios corretivos. 

Uma vez que essas posturas desenvolvimentais mais básicas fornecem a necessária força, estabilidade e coordenação para posturas mais desafiadoras, pular essas etapas no processo de reabilitação do movimento pode deixar os clientes sem a fundação necessária para que sejam bem sucedidos em níveis mais altos. A eficiência do movimento é diminuída e eles estão em um risco maior de lesão. 

Quer se trabalhe com atletas ou com o público em geral, ambos necessitam construir movimentos complexos a partir de uma base geral de movimento. Para isso os profissionais devem entender e aplicar a sequência neurodesenvolvimental.
(N.T: Quem, ao menos até onde sei, foram os pioneiros no estudo da sequência desenvolvimental, e desenvolveram todo um trabalho de reabilitação em primeiro momento e depois uma aplicação no exercício físico, foram os caras da Escola de Praga. Através de uma série de nomes ilustres da escola checa como Vladimir Janda, um de seus alunos chamado Pavel Kolar desenvolveu um conceito chamado: Dynamic Neuromuscular Stabilization - DNS. No DNS eles usam essa sequência para reabilitar e também para inserção no treinamento).



Gray Cook Discute os Erros que os Profissionais Cometem na Prescrição de Exercícios (Extraído do DVD: Essentials of Coaching and Training Functional Continuums DVD)


O que é Progressão?


A Sequência Neurodesenvolvimental
Os bebês chegam ao mundo com mobilidade irrestrita e seguem naturalmente e previsivelmente uma progressão de padrões de movimento (marcos desenvolvimentais ou marcos motores). Começam com o ganho de controle da cabeça e pescoço e progressivamente progridem para o rolamento, se arrastar, engatinhar, base ajoelhada, agachar, ficar em pé, dar um passo, caminhar, escalar e correr. 

Cada padrão de movimento serve como um degrau, ajudando a construir uma postura correta, equilíbrio, mobilidade, estabilidade e alinhamento para permitir que eles se movam para o próximo nível.

Estes padrões de movimentos básicos fornecem a fundação para habilidades de mais alto nível e deveriam ser examinados quando se busca reabilitar ou restaurar padrões de movimento faltosos.


Na maior parte das vezes, o bebê inicia a vida em uma posição supinada (N.T: De barriga para cima), suportado por um braço de adulto. Esta é uma posição baseada em flexão, de um nível (de exigência) extremamente baixo.

Por volta das 6 semanas, o bebê começa a desenvolver a habilidade de manter a cabeça ereta quando é sustentado em uma posição vertical.


Em seguida vem a posição pronada (de barriga para baixo). É uma posição baseada em extensão, permitindo ao bebê desenvolver estratégias de extensão para ser capaz de levantar a cabeça e pescoço.


Ao redor de 8 semanas, o bebê desenvolve a habilidade de se levantar a partir da posição pronada. Ele desenvolve estabilidade e mobilidade na coluna cervical, região escapulotorácica e nos membros superiores. Ele aprende a estabilizar o tronco enquanto alcança objetos e aplica força através dos braços.

(N.T: O DNS, mencionado anteriormente, usa estes marcos motores, essa sequência desenvolvimental, para prescrever exercícios que integrem o sistema de estabilização intrínseco do tronco a fim de reabilitar os indivíduos e melhorar a função do aparelho locomotor em geral. Abaixo um quadro, modificado dos posters a venda no site do DNS, que mostra uma progressão de exercícios baseados nesses marcos de desenvolvimento motor, ou estágios de neurodesenvolvimento).

A Importância da respiração e o diafragma
A base de todas estratégias do movimento e a habilidade de movimento mais básica é a respiração.

O diafragma funciona primariamente como um órgão respiratório na criança recém nascida, mas por volta dos 4,5 meses o diafragma começa a desenvolver uma função postural, além da respiratória. Ele oferece estabilidade para a coluna e o núcleo (N.T: Núcleo, tradução livre de "core") possibilitando a capacidade de começar a se mover desenvolvimentalmente em posições que não oferecem um suporte completo (N.T: Como quando o bebê está deitado de barriga para cima ou para baixo. Posições que oferecem suporte completo, ou seja, muitos pontos de apoio)
(N.T: Para que este sistema de suporte postural funcione adequadamente, é necessário que o posicionamento do gradil costal, e consequentemente do diafragma, esteja alinhado com o assoalho pélvico, formando assim o que muitos chamam de "cilindro". Esse cilindro possibilita um sistema de estabilização AUTOMÁTICO eficiente através da regulagem da pressão intrabdominal e correta sequência de ativação neuromuscular: Necessária para estabilizar o tronco. Acredita-se que a chave, o gatilho para que este sistema funcione bem é a respiração natural e correta. Mais sobre esse sistema de estabilização automático, ou como chamam alguns: O "Subsistema Intrínseco de Estabilização" pode ser achado nesse texto adaptado nesse espaço: Subsistema Intrínseco de Estabilização).
Subsistema Intrínseco de Estabilização


Adaptação do material oficial do DNS - Correto e incorreto posicionamento do cilindro


Aqui um vídeo do DVD Mark Cheng: Prehab Rehab 101 sobre como usar um kettlebell leve para ensinar uma respiração diafragmática apropriada.


Rolamento
O rolamento começa tão cedo quanto 3 semanas, embora a maioria inicie a partir de 8 semanas. As crianças normalmente iniciam esse movimento de lado e terminam de barriga para cima ou iniciam de barriga para baixo e terminam de lado. Ao redor de 16 semanas, eles desenvolvem a força e estabilidade necessárias para começar o movimento de barriga para cima e terminar de lado. 

O rolamento inicia com a cabeça (N.T: Após o olho guiar o movimento, mais sobre o assunto em um artigo adaptado recentemente aqui: Movimento dos Olhos) e é frequentemente a primeira mudança na posição postural das crianças.

Quando se trata de adultos, o rolamento é uma estratégia de movimento que não é usada com frequência e quase sempre é deficiente. É uma ótima maneira de avaliar, assim como serve de técnica de intervenção para restaurar a sincronia do movimento entre as extremidades superiores, o tronco e as extremidades superiores.

O rolamento pode ser iniciado pelas extremidades inferiores ou superiores. O núcleo, que se encontra no meio da cadeia cinética tem de ser capaz de transmitir força de uma extremidade para outra.



Se estamos usando o rolamento como uma avaliação ou técnica de intervenção, devemos prestar atenção nos pontos onde o movimento "trava", onde as pessoas simplesmente não conseguem se mover sem que comecem a compensar ou usar um "impulso". Pontos de travamento ocorrem onde a sequência ou o controle motor falham e o movimento não flui naturalmente. Normalmente isso não ocorre em virtude de músculos fracos ou inibidos, mas porque o padrão não funciona.
(N.T: Pelo que tenho experimentado ao usar o Método NKT, vejo que muitas vezes podemos sim, utilizar a estratégia de avaliar e corrigir os músculos fracos/inibidos dentro do padrão de movimento. Após analisarmos e corrigirmos os músculos individuais dentro do padrão de movimento podemos fazer a integração dos músculos falhos dentro desse padrão. Uma possível abordagem é:
Avaliar e trabalhar o todo - Avaliar e corrigir as partes - Integrar novamente ao todo. Resumindo, seria: Uma abordagem Global-Local-Global).

(N.T: Abaixo um vídeo antigo que eu já havia postado aqui em 2010, mas que não me canso de ver, sobre a jornada do rolar. Acompanhemos a Liv então...).


4 Apoios e Engatinhar
Pegar objetos de maneira ativa (N.T: E não como um reflexo. O chamado Reflexo de Babinski, quando o bebê realiza uma forte preensão manual quando é estimulado na palma da mão) ocorre em algum ponto entre 2 e 7 meses de idade. A criança se move para a posição sentada e de 4 apoios uma vez que desenvolve a estabilidade necessária nos quadris e pelve. A posição de 4 apoios então progride para o engatinhar ao redor de 7 meses.

A posição de 4 apoios é uma grande postura desenvolvimental para os adultos experenciarem. Temos aí entre 4 e 6 pontos de contato com o solo e temos removido o estímulo direto da barriga (quando pronado) e das costas (quando supinado).



Isso envolve um grande estímulo da descarga de peso corporal nas pernas e braços, consequentemente através da cintura escapular e cintura pélvica.

Nessa posição, podem ser iniciadas atividades em cadeia cinética fechada, como a mudança do peso corporal - ajudando a determinar onde se encontra a posição neutra da coluna.

Novas intervenções na correção do movimento podem ser usadas usando o engatinhar: Seja engatinhar rápido ou no lugar, ou usar um "passo" no lugar com as mãos e joelhos (como uma maneira de enfatizar a estabilidade ou os estabilizadores proximais da pelve, região escapulotorácica e da coluna).




A partir do engatinhar, as crianças passam para posturas de transição quando avançam mais próximas à posição em pé: Como a base ajoelhada e meio ajoelhada. Isto ocorre ao redor de 8 meses. 

A base ajoelhada fornece um desafio anterior-posterior ao núcleo e extremidades inferiores sem usar os pés, e é um valioso recurso na reabilitação. Acaba ajudando a melhorar a estabilidade e controle dinâmico do núcleo e da pelve.  


Gray e Dan John: Trabalhando na Base Ajoelhada


Que exercícios usar para trabalhar nos padrões desenvolvimentais?
No DVD: Prehab-Rehab 101 - The Groundwork Progressions, Mark Cheng explica 5 posições na sequência desenvolvimental:

  • Periscópio (Periscope)
  • Esfinge (Sphinx)
  • Engatinhar (Crawling)
  • Ajoelhado
  • Meio-ajoelhado

Estas 5 posições são mostradas em detalhes e as ferramentas para regredir e progredir estes exercícios são fornecidas para poderem ser usadas com os clientes, atletas ou pacientes. 

Mark inicia nas posições desenvolvimentais mais básicas e progride até posições de transição como a base meio ajoelhada, o precursor de ficar em pé, a base simétrica (N.T: Em pé, com um pé ao lado do outro), base assimétrica (N.T: Em pé, com um pé a frente e o outro atrás) e a postura unipodal (N.T: Em uma perna somente)


Aqui alguns clipes do DVD:
Mark Cheng - Movimento é Como Dinheiro

Dicas Táteis Simples para a Posição de Esfinge

Discussão a Respeito de Exercícios na Posição de Esfinge

Marcha Cruzada no Lugar

Base Ajoelhada


Exercício de Rotação em Base Meio Ajoelhada  

terça-feira, 8 de março de 2016

Métodos de Treino de Potência

Outra adaptação de um artigo do Mike Boyle, falando sobre o treinamento de potência. Há alguns meses adaptei outro artigo dele falando sobre o mesmo tema, aos que quiserem conferir: Retardando a Perda de Potência Resultante da Idade
Como de hábito, inseri algumas figuras e vídeos que não constavam no artigo original.
Boa leitura aos amigos.




Potência ao Cubo

Mike Boyle



Mais uma vez as mídias sociais me dão uma ideia para um artigo. 

Recentemente, minha filha de 12 anos publicou um vídeo no Youtube dela fazendo uma série de hang cleans (N.T: O clean é a primeira parte do arremesso, hang clean é feito com a barra suspensa. Abaixo um vídeo do Boyle demonstrando uma progressão desse exercício)


Não somente o clipe produziu uma discussão técnica a respeito dos levantamentos de peso olímpico, mas também gerou uma discussão teórica sobre como treinar para potência. Um tópico que surgiu foi: "Como treinamos para potência". Então eu percebi que embora soubesse a resposta, nunca tinha escrito sobre isso. No nosso centro de treinamento, Mike Boyle Strength and Conditioning, o desenvolvimento de potência geralmente é um processo em 3 partes. 

Em um mundo perfeito, com um cliente saudável, o treinamento de potência é feito de 3 diferentes maneiras:



Método 1


Desenvolvimento de Potência com Implemento Leve:


Potência com um implemento leve é basicamente o uso de arremessos com medicine ball. Implementos leves (normalmente menos de 5kg) são usados para desenvolver potência em uma série de padrões. 

O ponto chave aqui é que o peso do implemento pode ser escolhido baseado nas necessidades ou pontos fortes dos atletas e clientes. Para nós, o trabalho de potência usando implementos leves é geralmente dividido em:

- Arremessos acima da cabeça (N.T: Overhead throws).




- Arremessos de peito (N.T: Chest throws).


- Arremesso "marreta" (N.T: Slams).


- Padrões rotacionais.


Para os arremessos acima da cabeça, nós raramente excedemos 3kg ou 6 libras.
Para arremessos de peito, usamos bolas Dynamax de 8 a 10 libras (N.T: 3,62 a 4,53 kg). Nós geralmente usamos as mesmas bolas Dynamax de 8 a 10 libras para potência rotacional. Essas bolas são ótimas para enfatizar a parte concêntrica do arremesso. No trabalho de potência usando implementos leves, a carga é liberada das mãos. Todas as pessoas que treinam conosco arremessam medicine balls. Novo ou velho, todos arremessam. Neste método, implementos leves são arremessados em alta velocidade. Com medicine balls nós podemos abordar mais facilmente o espectro final (de velocidade) da curva força-velocidade, já que a carga é leve e fácil de acelerar. Implementos leves, como medicine balls, podem também serem usados para o trabalho de potência de membros inferiores, embora nós raramente o façamos aqui no MBSC (N.T: Mike Boyle Strength and Conditioning).

Curva Força - Velocidade
(N.T: A curva força-velocidade (força no eixo X e velocidade no eixo Y) mostra a relação inversa entre essas duas variáveis, quanto maior o peso, menor a velocidade e vice-versa. Então diferentes tipos de treino ocorrem em diferentes pontos da curva. Muitos termos se confundem e de fato existe bastante confusão na interpretação da curva, especialmente nos termos: Força-Velocidade X Velocidade-Força, que muitas vezes são usados de maneira intercambiável e não são exatamente a mesma coisa.
Força-Velocidade significa que movemos um peso maior o mais rápido possível, tipicamente por volta de 60% de 1 Repetição Máxima (1RM) e a barra se move em uma velocidade de 0,8 - 1 m/s.
Velocidade-Força por sua vez, significa que se está tentando, da mesma maneira, mover a barra o mais rápido possível, mas com um peso mais leve, tipicamente por volta de 25-40% de 1RM e a barra se move à uma velocidade de 1,1 - 1,5 m/s.

Dois artigos no site Elite FTS, com as referências de publicações, que esclarecem um pouco o tema são: Speed vs. Speed Strength e The Force Velocity Curve).



Método 2


Desenvolvimento de Potência com Peso Corporal:

Potência com peso corporal é basicamente pliometria do membro inferior. No treino de potência com peso corporal nós lidamos com um continuum muito amplo, desde o atleta altamente elástico até o cliente de personal training com sobrepeso. 

Com o treino de potência usando o peso corporal, os treinadores precisam ser muito mais cuidadosos do que com medicine balls. Neste método, o peso corporal torna-se uma constante difícil, mas não impossível, que tem de ser contabilizada. 

Como eu disse antes, qualquer um nos nossos programas de treinamento arremessa medicine balls. Em um mundo perfeito, todo mundo também faria o trabalho de potência de membros inferiores usando o peso corporal. Infelizmente o peso corporal do cliente é uma força constante que pode ser grandemente aumentada pela gravidade. O trabalho de potência usando o peso corporal irá desenvolver a produção de potência dos quadris e pernas, mas o uso de uma progressão apropriada é essencial (N.T: Adaptei, há tempos atrás, um bom artigo do próprio Boyle falando sobre progressões de exercícios pliométricos: Pliometria)

É importante notar que o que constitui o aquecimento em um programa para atletas pode ser considerado um trabalho de potência para o cliente adulto. Potência com peso corporal (basicamente exercícios como jumps e hops) precisa ser usado com grande cuidado (N.T: Jump = salta e aterrissa com os dois pés. Hop = Salta com uma perna e aterrissa com a mesma perna)

O MVP Shuttle é uma excelente ferramenta para trabalhar potência com os clientes adultos, já que ela permite o desenvolvimento dessa capacidade ao gradualmente aumentar a porcentagem do peso corporal. Um reformer, usado no pilates, ou um Total Gym, também podem ser usados para estes propósitos. O ponto chave aqui é novamente a velocidade e a resposta excêntrica à gravidade.   
(N.T: No vídeo acima, o Boyle demonstra os benefícios e o uso do MVP Shuttle. Aos 2:12 ele demonstra os saltos).



Método 3


Desenvolvimento de Potência com Implemento Pesado:

No trabalho de potência usando implemento pesado, o implemento usado geralmente cai em duas categorias. Atletas ou clientes irão usar cargas externas na forma de kettlebells ou barras olímpicas. Novamente, a grande maioria dos nossos clientes irão usar este terceiro método. A exclusão pode ser alguns de nossos clientes mais velhos ou, àqueles clientes com dor lombar crônica. 

Em geral, clientes mais velhos, não-atletas, não irão fazer levantamentos de peso olímpico. Eu penso que este tipo de levantamentos para adultos é uma escolha ruim em uma escala de risco-benefício. 

Nossos clientes adultos saudáveis irão usar swings com kettlebell para o desenvolvimento de potência usando carga externa. A curva de aprendizado é muito menor e as cargas também são bem menores usando kettlebell.
(N.T: Pensando na Curva Força-Velocidade, mencionada anteriormente, a conclusão que tiro, e que pode obviamente não estar correta, é de que kettlebells cairiam mais no espectro de Velocidade-Força; e que barras olímpicas cairiam mais no espectro de Força-Velocidade. Dependendo, claro, do quanto de carga se tem na barra).


O desenvolvimento de potência é essencial para atletas e não-atletas. Atletas obviamente necessitam do trabalho de potência para melhorar o desempenho, enquanto que adultos precisam desse trabalho para compensar a perda das fibras de contração rápida associada ao envelhecimento (N.T: Como citado anteriormente, o Boyle escreveu um artigo sobre o tópico que foi adaptado nesse espaço, aos que quiserem conferir: Retardando a Perda de Potência Resultante da Idade).

Poderíamos levantar uma discussão em cima do fato de que adultos têm maior necessidade de fazer treinamento de potência, já que a ciência tem nos mostrado que adultos perdem potência mais rapidamente do que força. No entanto, o processo tem de proceder de maneira lógica.

Como mencionamos frequentemente, o ponto central é escolher a ferramenta certa para o trabalho certo. Nós treinadores frequentemente tentamos colocar peças quadradas em buracos redondos em nosso desejo para usar algum determinado exercício (N.T: Uma analogia àquele joguinho de peças de madeira, onde temos de encaixar a peça no buraco correspondente). O que é bom para um atleta de 20 anos, pode ser um potencial desastre para um empresário de 40 anos. 

Como digo frequentemente, a questão não é se devemos treinar potência, mas como devemos treinar potência.   

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Subsistema Intrínseco de Estabilização

Finalizando a série dos subsistemas, com aquele que poderia ser considerado o primeiro e mais fundamental deles: o Subsistema Intrínseco de Estabilização.

Aos que não leram os artigos anteriores:
Subsistema Longitudinal Profundo.

Subsistema Oblíquo Anterior.
Subsistema Lateral.
- Subsistema Oblíquo Posterior.

Link do artigo original: Intrinsic Stabilization Subsystem





Subsistema Intrínseco de Estabilização

Brent Brookbush


O Subsistema Intrínseco de Estabilização é composto por:
  • Transverso Abdominal
  • Multífido 
  • Assoalho Pélvico (Levantador anal, Coccígeno e fáscia associada)
  • Diafragma 
  • Fáscia Toracolombar
  • Rotadores, Interespinhais, Intertransversais


  • Nota: Os rotadores, interespinhais e intertransversais não são tradicionalmente vistos como parte do Subsistema Intrínseco de Estabilização. No entanto, é afirmação minha de que eles deveriam fazer parte deste grupo. Baseado nas minhas considerações de anatomia e função (especialmente seu papel na propriocepção, senso de posicionamento articular e estabilização intersegmental), adicionar estes músculos ao subsistema adiciona congruência ao nosso entendimento de sinergias musculares, comportamento motor e modelos preditivos de problemas de movimento. 


Função (resumida):

  O Subsistema Intrínseco de Estabilização aumenta a pressão intra-abdominal, tensão na fáscia toracolombar, rigidez segmental entre as vértebras, rigidez da articulação sacroilíaca e o alinhamento segmental (6). Isto resulta em uma estabilização otimizada do complexo lombopélvico/quadril, aumentando a transferência de força entre as extremidades superior e inferior e a função de todos os outros subsistemas:



O Subsistema Intrínseco de Estabilização e seus vários nomes: 

  Esse grupo de músculos têm sido chamado de "estabilizadores intrínsecos", "músculos intrínsecos do núcleo", "estabilizadores locais", "estabilizadores profundos", "cinturão interno", e meu apelido favorito: "Transverso abdominal e seus amigos". A ideia de adicionar esta sinergia muscular aos "Subsistemas do Núcleo" é uma ideia original - em essência, eu que inventei (N.T: O termo "núcleo" é uma adaptação livre da palavra em língua inglêsa "core").

  Esta não é uma tentativa de criar uma nova linguagem, ao contrário, é minha tentativa de integrar conhecimento. Em minha busca por congruência (N.T: Artigo: Search for Congruence) eu percebi que vendo esta sinergia como um dos Subsistemas do Núcleo, eu poderia integrar as ideias de Richardson et. al., Stuart McGill, Liebenson et. al. e Vleeming com o modelo de disfunções do movimento humano baseado no trabalho de Vladimir Janda, Shirley Sahrmann, Mike Clark e o meu próprio (1-9).

  Com os músculos adicionais que sugeri nesta série de artigos sobre os Subsistemas do Núcleo, todos músculos desta região central do corpo estão representados e sua função integrada considerada.  

  • Este subsistema representa o intrínseco, enquanto que os músculos globais do núcleo são representados por todos os outros subsistemas. Em virtude dos Subsistemas do Núcleo dividirem a musculatura global em grupos funcionais, seu comprimento relativo e atividade podem ser considerados na relação com disfunções posturais. Isto por sua vez, tem um impacto significativo na seleção de exercícios para reabilitação, condicionamento físico e aumento do desempenho.


Artrocinemática Funcional:

  Devido à curva lordótica e formato da vértebra lombar em uma coluna normal e saudável - forças de compressão e extensão irão incluir um vetor que resulta em uma translação anterior das vértebras lombares (forças de cisalhamento anterior). Os eretores da coluna (espinais, iliocostais, longuíssimos), latíssimo do dorso, quadrado lombar e ilíaco-psoas são motores importantes e também estabilizadores do núcleo, mas como extensores e produtores de forças de compressão eles contribuem para as forças de cisalhamento anterior nas vértebras lombares.
Músculos que produzem uma força que causa uma anteriorização das vértebras lombares 
Direção da força de cisalhamento anterior

Quando funciona de maneira ideal, o Subsistema Intrínseco de Estabilização aumenta a pressão no peritônio (similar à espremer um balão), criando uma força posterior contra a superfície anterior da coluna lombar.
Direção da força que combate o cisalhamento anterior


  Além da contribuição a esta pressão intra-abdominal aumentada, o transverso abdominal contribui para aumentar a rigidez da fáscia toracolombar, contribuindo para a estabilidade lateral da coluna lombar e o aumento das forças de compressão entre o sacro e o ílio, resultando em maior estabilidade da articulação sacroilíaca (6).

 Ainda, os músculos intersegmentais da coluna (rotadores, interespinhais e intertransversais) mandam informação proprioceptiva de volta ao Sistema Nervoso Central e mantém o micro alinhamento das vértebras lombares, com a ajuda da contração dos multífidos. Estes músculos também contribuem para aumentar a rigidez lombar. 
  Se o Subsistema Intrínseco de Estabilização não funciona de maneira ideal para diminuir a força de translação anterior, então as forças criadas durante o movimento podem resultar em uma subluxação anterior, força excessiva nas estruturas passivas, dor, disfunção e lesão (estiramentos, discos herniados, dano na cápsula articular, compressão dos nervos, degeneração artríticas, etc.).


Função Integrada:

  Estudos mostram o recrutamento sinérgico dos multífidos lombares ao ser feita a ativação do transverso abdominal (N.T: Fazendo a manobra de "encolher a barriga". O que em língua inglesa chamam de "drawing in") em preparação para o movimento dos membros. Ainda, mudanças similares em atividade muscular têm sido notadas no assoalho pélvico e diafragma relacionadas à carga levantada (6). Acredita-se que a função otimizada destes músculos são parte do mecanismo antecipatório (N.T: Feedforward em inglês) que aumenta a estabilidade da coluna, incluindo: eficiência aumentada das forças geradas pelos estabilizadores globais (os outros subsistemas do núcleo) para resistir à cargas externas.

  O recrutamento sinérgico destes músculos aumenta a pressão intra-abdominal, a tensão na fáscia toracolombar, rigidez segmental entre as vértebras, rigidez da articulação sacroilíaca e aumenta o alinhamento segmental (6). Isto resulta em estabilização otimizada do Complexo Lombopélvico-Quadril, aumentando a transferência de força entre as extremidades superior e inferior e a função de todos os outros subsistemas.

  É importante notar que este subsistema, por si só, não é responsável por qualquer movimento. A sua ativação irá resultar na diminuição da circunferência abdominal, a manobra de "encolher a barriga" (N.T: Drawing In) e estabilidade aumentada do Complexo Lombopélvico-Quadril, mas nenhuma ação articular visível. O recrutamento ideal do Subsistema Intrínseco é essencial para o bom desempenho de todos os outros subsistemas.



Comportamento nas Disfunções Posturais (Comportamento Motor):

(N.T: Como descrito nos capítulos anteriores desta série dos subsistemas, o autor descreve o que ele chama de "Disfunções Posturais" dividindo-as em: Disfunções do Complexo Lombopélvico-Quadril, Articulação Sacroilíaca, Membro Superior e da Parte Inferior da Perna. Nesse artigo ele dá uma visão geral desse sistema de classificação das disfunções posturais: Introduction to Postural Dysfunction and Movement Impairment).

  Da mesma forma que o Subsistema Oblíquo Posterior, o Subsistema Intrínseco é comumente hipoativo. Embora este subsistema obviamente desempenhe seu maior papel em Disfunções do Complexo Lombopélvico-Quadril e da Articulação Sacroilíaca, a hiperatividade do latíssimo do dorso e do subsistema oblíquo anterior em Disfunções do Membro Superior inevitavelmente irá levar à uma dominância dos músculos globais do núcleo e à inibição do Subsistema Intrínseco de Estabilização.  

 O Subsistema Intrínseco desempenha seu papel menos significativo nas Disfunções da Parte Inferior da Perna. Embora haja potencial para que ocorra hipoatividade do subsistema intrínseco ao ocorrerem alterações na atividade e comprimento muscular dos seguintes músculos: Tensor da fáscia lata, bíceps femoral, semitendíneo e semimembranáceo, adutores e glúteo máximo; com uma mudança resultante no posicionamento pélvico, outras musculaturas têm maior prioridade nestas disfunções (da parte inferior da perna).

 Comumente, a sub-atividade do subsistema intrínseco vem em par com a dominância sinergística dos subsistemas oblíquo anterior e longitudinal profundo.

A dominância do Subsistema Longitudinal profundo pode resultar em:
- Joelhos para dentro.
- Joelhos para fora.
- Pés rodados para fora.
- Distribuição assimétrica de peso durante a avaliação do agachamento com os braços acima da cabeça (N.T: Overhead squat).

Enquanto que a dominância do Subsistema Oblíquo Anterior pode resultar em:
- Cifose torácica excessiva.
- Flexão da coluna.
- Excessiva inclinação do corpo à frente.

  O mais óbvio sinal de disfunção nesse subsistema é a distensão abdominal, uma falha no transverso abdominal para manter a tonicidade muscular e a estabilização do complexo lombopélvico-quadril durante as diversas atividades a que o corpo é submetido. 


Subsistemas, Disfunção Postural e Seleção de Exercícios Integrados:

  Os resumos abaixo são destinados à uma referência rápida, na prática, e não ilustram todos os possíveis cenários.
(N.T: Os quadros abaixo são os mesmo apresentados nos artigos anteriores sobre os subsistemas).

Atividades dos Subsistemas Baseado na Disfunção Postural:













     

Efeito no Exercício:







                                          

Resumo:











                           

Um Novo Membro do Subsistema Intrínseco:

  Na minha avaliação, os rotadores, interespinhais e intertransversais (músculos profundos da coluna) deveriam ser inclusos neste subsistema. Pesquisas têm mostrado maior densidade de receptores nos rotadores (fusos musculares), implicando que eles provavelmente agem como "órgãos proprioceptivos", para monitorar o alinhamento intervertebral (os intertransversais e interespinhais provavelmente desempenham um papel semelhante) (3). Já os multífidos são ideais para alterar o alinhamento intervertebral, devido ao seu maior tamanho e inervação segmental. Parece que os rotadores, interespinhais e intertransversais agem como "órgãos proprioceptivos" e podem estar intimamente ligados, através de um arco reflexo, com estes grandes estabilizadores segmentais (multífidos), desempenhando um papel em sua atividade muscular e tônus de repouso (6).

  Se isto é verdade, então qualquer mudança no comprimento dos rotadores, interespinhais e intertransversais iria resultar em um recrutamento sinérgico dos multífidos e transverso abdominal, alterações na tonicidade do assoalho pélvico e diafragma em relação à carga a ser levantada.


Seleção de Exercícios:

  Diferente de outros subsistemas, ao discutir o "comportamento" ideal do subsistema intrínseco, não nos limitaremos a descrever a melhor seleção de exercícios para o núcleo, para integração ou exercícios globais, já que nosso entendimento do subsistema intrínseco não nos ajuda a programar um treinamento resistido com pesos mais balanceado. Este subsistema é na realidade, a musculatura ativada quando desafiamos o transverso abdominal. Esta ativação pode ser feita como o primeiro exercício do "Suporte do Núcleo", sem impactar negativamente a ordem da seleção dos exercícios. 

Nota:
  A inabilidade do cliente em manter a ativação do subsistema intrínseco (com a manobra de encolher a barriga) durante qualquer exercício é um indicador usado comumente para que o exercício seja regredido. Ensinar esta manobra durante todos os exercícios é uma maneira efetiva de manter a atividade/força desse subsistema, já que a maioria das disfunções posturais têm sido resolvidas com sucesso uma vez que o cliente consiga completar a progressão de ativação do transverso abdominal. 

  Progressões mais avançadas de ativação do Subsistema Intrínseco incluiriam todas Progressões de Força do Núcleo (N.T: Core Strength Progressions). Tenha o cuidado de monitorar a habilidade dos clientes em manter a manobra de "encolher a barriga". Em essência, a ativação do transverso abdominal será substituída, assim que dominada, por exercícios mais desafiadores para o núcleo. 


Bibliografia:


  1. Dr. Mike Clark, Scott Lucette. NASM Essentials of Corrective Exercise Training. 2011.
  2. Craig Liebenson. Rehabilitation of the Spine: A Practitioner's Manual. 2007.
  3. Stuart McGill. Low Back Disorders: Second Edition. 2007.
  4.  Donald A. Neumann. Kinesiology of the Musculoskeletal System: Foundations of Rehabilitation - 2nd Edition. 2012.
  5. Philip Page, Clare Frank, Robert Lardner. Assessment and Treatment of Muscle Imbalance: The Janda Approach. 2010.
  6. Carolyn Richardson, Paul Hodges, Julie Hides. Therapeutic Exercise for Lombo Pelvic Stabilization - A Motor Control Approach for the Treatment and Prevention of Low Back Pain: 2nd Edition. 2004.
  7. Shirley Sahrmann. Diagnoses and Treatment of Movement Impairment Syndromes. 2002.
  8. Andry Vleeming, Vert Mooney, Stoeckart. Movement, Stability and Lumbopelvic Pain: Integration of Research and Therapy. 2007.
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