quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Estudos de Caso de Chuck Wolf

Continuando com as publicações inspiradas no Summit do Movimento.

Dessa vez apresento alguns estudos de caso de Chuck Wolf, preparador físico que possui seu centro de treinamento em Orlando - Flórida, Chuck é uma grande figura, dos apresentadores do Summit do Movimento de 2013 foi dele que ficamos mais próximos, desse tipo que bate papo contigo na mesa do café da manhã do hotel.
Delegação do RS (e alguns enxertos hehehe) com o Chuck "Lobo" (em pé no centro da foto)

Resolvi pegar uns estudos de caso na página da empresa dele, Human Motion Associates, e apresentar aos amigos para que conheçam um pouco mais seu trabalho, creio que irão apreciar.
Apesar dos 3 casos apresentados serem diferentes, há algo em comum: O fato de termos de pensar sempre em termos globais e não somente locais, geralmente os locais de dor e/ou disfunção são consequências e não causas.

Outro fator comum que chama a atenção é o fato do Cuck sempre analisar o pé e o complexo do tornozelo em busca de possíveis causas e relações, lembro que ao ouvir as suas palestras no Summit de 2013 os conhecimentos dele em relação a esta área do corpo se sobressaiam, realmente ele manja e muito disso.

Como de costume inseri algumas figuras extras nos textos com a finalidade de facilitar a compreensão, bem como as tradicionais notas do tradutor.
Grande abraço aos amigos.


Estudo de Caso #1
Eu tive um caso interessante esta semana envolvendo um atleta de beisebol da 1ª divisão com um pós-operatório de 12 semanas de uma reconstrução do ligamento cruzado anterior do joelho direito.
Ligamento Cruzado Anterior (LCA)

Ele já está de volta ao beisebol, arremessando, rebatendo e fazendo corridas lineares. Sua queixa primária é de encurtamento/rigidez no trato iliotibial, panturrilha, flexor do quadril, joelho e oblíquos, sendo que alongamentos não lhe oferecem um alívio completo.
Banda ou Trato Iliotibial


Se você tem familiaridade com minhas ideias, você sabe onde eu fui olhar primeiro...o pé e o complexo do tornozelo.

Tenho visto pela minha experiência na clínica e a partir de um ponto de vista pessoal, que estas regiões frequentemente se tornam bastante tensas após uma lesão no joelho, cirurgia ou colocação de prótese (N.T: Em casos de osteoartrose avançada de joelho, a colocação de uma prótese é imperativa a fim de aliviar a dor).

Lembro-me muito bem quando desenvolvi um antepé varo, rigidez de flexor de quadril, trato iliotibial e complexo glúteo. Desconforto na coluna lombar, falta de mobilidade na coluna torácica e rigidez da cintura escapular...tudo isso após uma cirurgia de colocação de prótese no joelho.
Antepé Varo

Na época, eu sentia que possuía uma flexão do joelho adequada, mas faltava o deslizamento posterior durante a flexão do joelho, os mesmos problemas que este jogador de beisebol estava enfrentando.
(N.T: No caso de uma flexão da tíbia sobre o fêmur, isto é, uma flexão em cadeia cinética aberta, a tíbia rola e desliza para trás. Já no caso de uma flexão em cadeia cinética fechada, como ao descer em um agachamento: flexão fêmur sobre a tíbia. O fêmur rola para trás e desliza para frente. Neumann, D.A. Cinesiologia do Aparelho Musculoesquelético, 2005).

Eu chequei sua dorsiflexão de tornozelo, abdução do antepé, eversão da articulação subtalar e rotação interna da tíbia, todas com limitação de mobilidade.
Articulação Subtalar

Quando ele fazia um simples agachamento unilateral, com amplitude limitada, seu calcanhar direito (do mesmo lado da lesão no joelho) se elevava do solo logo no início do movimento, justamente devido a essa falta de mobilidade em todo complexo, afetando todo o mecanismo de carga da extremidade inferior, no tornozelo e no quadril (N.T: Nas articulações acima e abaixo do local de lesão primário, o joelho). Isto irá criar uma distribuição de carga abaixo do esperado no complexo glúteo, especialmente no lado do joelho lesionado.

Analisando seu complexo pélvico, ele exibia uma anteversão pélvica, causada por rigidez no complexo dos flexores do quadril, incluindo o quadríceps e o sartório.
Anteriorização Pélvica

Isto causava uma inabilidade de colocar carga de maneira efetiva nos glúteos. Como os glúteos no seu lado direito eram fracos (N.T: Mesmo lado da lesão primária no joelho), as fibras encurtaram causando um aumento de comprimento da banda iliotibial e a sensação de rigidez. Na realidade, a banda iliotibial NÃO ESTAVA encurtada e rígida, mas alongada e tensa, ainda que a sensação fosse a mesma.

Alongamento não irá resolver esse problema, apenas tratar o sintoma. Mais tarde nesta semana, irei avaliar as estratégias que usarei para ajudar este jogador de beisebol.
A moral da estória é:

"Pense em termos globais, não apenas localmente, quando os sintomas se apresentarem".

Neste caso, o joelho e o quadril eram as vítimas, mas o pé e o complexo do tornozelo foram afetados e causaram um grande impacto em toda a biomecânica do membro inferior.


Estudo de Caso #2
Outro caso interessante esta semana, uma golfista destra veio me ver apresentando uma queixa de dor no pulso esquerdo, especialmente no ponto alto de seu backswing (N.T: Deixei o termo de golfe no nome original mesmo).
Tiger Woods - Ponto alto do Backswing
A amplitude de movimento na articulação radioulnar estava boa, e a do punho também. Uma análise do movimento da marcha revelou rigidez na sua escápula esquerda e quadril direito, reduzindo sua habilidade de produzir movimento adequado durante seu backswing.

A correlação é o Fator X Posterior (quadril e ombro opostos) reduzindo sua habilidade de rotação interna do quadril direito. (N.T: Chuck chama de Fator X Posterior a ligação entre o ombro e o quadril oposto via fáscia toracolombar, uma importante conexão de estabilização e transmissão de forças entre os membros superiores e inferiores. Muitos chamam essa conexão de subsistema oblíquo posterior).
Fator-X Posterior OU Subsistema oblíquo posterior

Isto causava uma rotação interna reduzida em sua cintura escapular direita, e seu punho (esquerdo) compensava essa falta de rotação interna da cintura escapular com um movimento extra a fim de obter o correto alinhamento do taco de golfe para a batida (N.T: Interessante analisar o posicionamento dos punhos do Tiger Woods na foto acima, os punhos estão alinhados com os antebraços).

Após mobilizar a escápula esquerda e a rotação interna do quadril direito (N.T: O Fator-X mencionado antes), seu movimento durante o backswing era maior e o punho esquerdo não doía mais.

A moral da estória:
"O movimento do quadril pode ter impacto no ombro do lado oposto no plano transverso".

Lembre-se, o local da lesão normalmente não é o problema, mas o sintoma. Olhe o movimento de maneira global, não de maneira local.


Estudo de Caso #3
A função do tornozelo é simples, mas incrivelmente complexa quando se pensa nas suas relações com o resto do corpo. Recentemente eu tive 2 clientes que se apresentaram na clínica: Um com dor lombar e a outra com dor no tendão patelar. Ambos tinham um histórico de lesão no tornozelo e tinham dorsiflexão limitada.

Considere as implicações desse "simples" movimento. Quando a dorsiflexão é limitada, o quadril do mesmo lado perde a extensão adequada. Isto pode reduzir o balanço do braço na flexão do ombro durante o ciclo da marcha, causando menos rotação torácica no lado oposto.
Ciclo da Marcha (Stance: apoio; Swing: balanço)

Não parece muito, no entanto, isso pode colocar mais stress na coluna lombar já que ela frequentemente compensa para produzir rotação durante o ciclo da marcha. Esse era o caso do cliente que se apresentou com dor lombar.

Quando o tornozelo foi mobilizado e a dorsiflexão adequada foi recuperada, adicionamos um alongamento integrado a fim de aumentar a extensão do quadril e a flexão do ombro, permitindo maior rotação no lado oposto (N.T: Rotação realizada pela coluna torácica, onde deve ser, diminuindo o excesso de rotação lombar).

Para a cliente com dor no tendão patelar, após restaurar a dorsiflexão adequada do tornozelo, ela foi capaz de estender adequadamente os quadris e reduzir a flexão exagerada dos joelhos durante o ciclo da marcha.

Assegure-se de que seus clientes tenham aproximadamente 40-45º de dorsiflexão do tornozelo durante o ciclo da marcha a fim de melhorar a função apropriada do corpo. Lembre-se, para que os glúteos sejam sobrecarregados de maneira adequada, é necessária a dorsiflexão do tornozelo. Se a dorsiflexão é limitada, a sobrecarga que os glúteos receberão não será a adequada.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva: O Fundamento do Treinamento Funcional - Parte 2

Aí está o complemento do artigo sobre Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva escrito pelo Lee Burton, que como já dito anteriormente é um dos criadores do FMS e será novamente um dos palestrantes do Summit Internacional do Movimento que ocorrerá na ensolarada Fortaleza na primeira quinzena de março.
Aos que ainda não leram a primeira parte do artigo, aqui está o link: Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva: O Fundamento do Treinamento Funcional - Parte 1
Nesta segunda parte Lee Burton fala de algumas das técnicas usadas no PNF bem como alguns de seus padrões.
Agradeço ao auxílio do fisioterapeuta Leandro Giacometti da Silva - Instrutor Assistente IPNFA (sigla que equivale a Associação Internacional de PNF), na tradução dos nomes em inglês das técnicas e as consultas via facebook que me auxiliaram a escrever as notas do tradutor, valeu meu camarada.

Creio que os amigos apreciarão a leitura.
Abraço a todos.


Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva:
- O Fundamento do Treinamento Funcional - 
Lee Burton


As técnicas usadas no PNF para fortalecimento, replicam movimentos e contrações musculares de muitas atividades físicas. A técnica de Iniciação Rítmica é usada tipicamente para auxiliar na educação do início do movimento (N.T: Usada em pessoas que apresentam dificuldade de iniciar e coordenar um movimento). Ela incorpora um padrão passivo, depois ativo assistido e então passa a ativo resistido, evitando um alongamento reativo (N.T: Um alongamento rápido, que por sua vez faz com que os fusos musculares contraiam, sendo que uma vez que os fusos musculares contraem fazem com que as fibras extrafusais, as fibras musculares em si, também contraiam). A técnica de Reversão Dinâmica é usada para a coordenação de um agonista e um antagonista (N.T: Muitas atividades funcionais, incluindo a marcha, requerem movimentos recíprocos. Esta técnica é usada para trabalhar a reversão da direção do movimento, com a fadiga diminuída e a força aumentada). É desempenhada por uma contração de um antagonista contra uma resistência seguida por uma contração do agonista.
O fortalecimento em uma amplitude de movimento específica pode ser completado com diferentes métodos. A técnica de Contração Repetida requer uma contração muscular repetida, uma vez que o músculo se torna fadigado, ela é suportada por um alongamento com uma contração concêntrica e excêntrica através da amplitude de movimento (N.T: Desta vez se usa o reflexo de estiramento citado anteriormente. A um padrão que já está alongado, é dado um breve e rápido estímulo de alongamento extra, produzindo então um reflexo de estiramento o que faz com que o movimento subsequente seja mais forte).

As técnicas de alongamento são usadas mais frequentemente para inibir espasticidade (N.T: Uma rigidez muscular excessiva, patológica). Existem 2 conceitos inibitórios que são aplicados durante os alongamentos do PNF. Inibição Autogênica depende das fibras nervosas de um músculo em alongamento causarem um relaxamento a esse músculo, causando portanto um maior alongamento (N.T: A inibição autogênica ocorre quando há uma tensão excessiva às fibras musculares, fazendo com que o Órgão Tendinoso de Golgi entre em ação, ele envia um sinal ao sistema nervoso central, cuja resposta é um sinal inibitório fazendo com que as fibras musculares envolvidas relaxem).
Inibição Recíproca envolve um efeito entre agonista e antagonista. A fim de um agonista contrair para gerar movimento o antagonista entra em um relaxamento reflexo para permitir a ocorrência do movimento. Prentice4 identifica as seguintes técnicas de alongamento do PNF para aumentar força muscular, resistência e coordenação:

1 - Contrair-Relaxar: Contrair-Relaxar é usado para ganhar amplitude de movimento restrita por encurtamento muscular. O paciente deve ser colocado em uma posição alongada. Ele é então instruído a contrair (N.T: Contração isotônica, o que significa que ele deve tentar vencer a resistência do terapeuta) contra a resistência do terapeuta e então relaxar. O paciente pode então ser colocado de volta a posição alongada. 
2 - Manter-Relaxar: é uma técnica similar, exceto que a contração ocorre isometricamente (N.T: Ambas as técnicas são similares e promovem relaxamento e um aumento subsequente na amplitude de movimento. Além da diferença no tipo de contração, geralmente a técnica de Contrair-Relaxar é utilizada quando não há dor envolvida no movimento, enquanto que a técnica de Manter-Relaxar é geralmente utilizada quando existe a presença de dor no movimento ou nos segmentos envolvidos).

3 - Reversão Dinâmica - Manter-Relaxar:  Envolve a contração de agonista e antagonista. Primeiro o antagonista contrai as articulações envolvidas na amplitude de movimento, o que causa um efeito de relaxamento e alongamento ao antagonista. Então, o agonista relaxa enquanto o antagonista contrai isometricamente. O passo final é outra contração do músculo agonista. Esta técnica de alongamento deve ser considerada sob o ponto de vista do antagonista (N.T: Ou seja, ele é o músculo alvo a ser alongado), que é Relaxa-Contrai-Relaxa.


Os padrões de PNF são usados para as extremidades superiores e inferiores e são divididos em D1 (diagonal 1) e D2 (diagonal 2) (N.T: Na verdade existem muito mais padrões dentro do PNF como padrões de escápula, padrões de pelve, de marcha, etc. que não são discutidos neste texto. Bem como variações dentro das diagonais de membros superiores e inferiores). O padrão da extremidade superior abarca o ombro, cotovelo, punho e dedos. De maneira similar, o padrão de extremidade inferior envolve o quadril, joelho, tornozelo e dedos. Cada padrão diagonal pode ser finalizado em flexão assim como em extensão. 
A diagonal 1 (D1) do padrão de flexão do ombro inicia com o ombro em flexão, adução e rotação externa, antebraço supinado, punho e dedos flexionados. A posição final para a diagonal 1 (D1) de flexão é: ombro em extensão, abdução, rotação externa, antebraço pronado, punho e dedos em extensão.
D1 de Flexão - Início
D1 de Flexão - Final

A diagonal 1 (D1) do padrão de extensão do ombro, reverte as ações do padrão de flexão.

A diagonal 2 (D2) do padrão de flexão inclui flexão do ombro, abdução e rotação externa, supinação do antebraço e extensão do punho e dos dedos.
Da mesma forma que na diagonal 1 (D1), o padrão de extensão da diagonal 2 (D2) reverte as ações do padrão de flexão.
D2 de Extensão - Início


D2 de Extensão - Final

Os padrões diagonais da extremidade inferior reproduzem os da extremidade superior, com os padrões de extensão fazendo as ações reversas dos padrões de flexão.
A diagonal 1 (D1) de flexão inclui: flexão do quadril, adução e rotação externa, dorsiflexão e inversão do tornozelo e extensão dos dedos.
A diagonal 2 (D2) de flexão inclui: flexão do quadril, abdução e rotação interna, dorsiflexão e eversão do tornozelo e extensão dos dedos.
(N.T: Cabe aqui uma nota mais longa, ressaltando que a nomenclatura ensinada na certificação oficial de PNF, emitida pela Associação Internacional - IPNFA, é diferente do que o autor colocou neste artigo. Não se usam mais estes termos D1 e D2 e o nome do padrão é dado à posição FINAL do movimento e não à posição inicial, como o Lee Burton colocou. Então em termos de nome do padrão é justamente ao contrário do colocado no texto. Ex: Na primeira figura ele descreve o padrão de flexão dos membros superiores, o sujeito está com o ombro em flexão, adução e rotação externa, antebraço supinado, punho e dedos flexionados. Da forma como aprendi, aquela seria a posição inicial para o padrão de EXTENSÃO e não de flexão).

O exercício Chop, comumente usado no treinamento funcional, utiliza os padrões diagonais de membros superiores (D1 e D2). O ângulo da resistência vem do alto, o que permite à extremidade superior ir de um movimento de puxar para um movimento de empurrar.
Chop - Início

Chop - Final

O exercício Lift usa o mesmo conceito, utilizando as diagonais 1 e 2 opostas, para puxar e depois reverter para uma empurrada (assim como o chop). Agora a resistência vem de baixo. Na posição ½ ajoelhada é requerido mais estabilidade, aumentando portanto o efeito proprioceptivo para realizar o movimento.
Lift ½ ajoelhado


Um dos padrões tradicionais do PNF usados no treinamento funcional para a extremidade inferior é a Passada Cruzada (N.T: Do original em inglês crossover step). Este movimento requer ambas as diagonais (1 e 2) de cada quadril enquanto se desempenham múltiplos passos. Afim de aumentar o grau de dificuldade podem ser usadas borrachas como resistência.

Ao ser colocada uma borracha ao redor da cintura, um aumento na irradiação pode ocorrer o que deveria aumentar a entrada de informações requerida para desempenhar o movimento5.
Passo Cruzado - Início

Passo Cruzado - Final

Uma vez que técnicas de PNF são introduzidas, é importante checar novamente os movimentos fundamentais que se mostraram disfuncionais (ou o movimento que se mostrou disfuncional). Isto irá assegurar que que o problema de mobilidade e/ou de estabilidade que está sendo atacado está tendo um efeito positivo no movimento. Este tipo de programação sistemática permitirá um contínuo retorno de informações, onde as progressões dos exercícios estão sendo baseadas em uma avaliação do movimento. Quando são vistas melhoras, pode se aumentar as demandas de resistência, agilidade, força, etc. e técnicas de PNF podem ser utilizadas para manter e progredir o indivíduo.

O PNF é projetado para melhorar o movimento através de estímulos neuromusculares apropriados de facilitação ou inibição. A fim de se ter os melhores resultados no treino funcional, os movimentos fundamentais precisam ser adequados, caso contrário, compensações irão surgir. Em muitos casos, os movimentos compensatórios que surgem são devido a rupturas no sistema neuromuscular. Esta pode não ser uma questão de flexibilidade ou força, os músculos provavelmente não são facilitados ou inibidos quando é necessário que o façam, resultando em um problema de mobilidade ou estabilidade. O PNF, é utilizado para melhorar o equilíbrio entre mobilidade e estabilidade através do fortalecimento e/ou alongamento de padrões de movimento. Com a finalidade de se determinar qual a melhor técnica a ser usada para cada indivíduo, é necessário que se tenha um parâmetro de movimento. (N.T: Como comentado antes, Lee Burton advoga o uso do FMS - Functional Movement Screen para esta finalidade, mas caso se utilizem de outra ferramenta não vejo problemas, desde que se tenha um parâmetro e uma ferramenta para avaliar movimento). Este passo inicial é necessário e altamente recomendável quando se for prescrever técnicas de PNF e métodos de treinamento funcional. Isto fornece um discernimento a respeito da área que se apresenta mais disfuncional, assim como um rápido retorno de informação a fim de determinar se a técnica usada obteve um efeito positivo.

O PNF tem sido há anos parte importante de técnicas terapêuticas. Mais recentemente, o foco em atividades funcionais permitiu que as técnicas de PNF se tornem uma parte integral deste tipo de programação de exercícios. PNF pode e deve ser incorporado em qualquer espécie de treinamento funcional, onde o sistema neuromuscular esteja causando disfunções em movimentos fundamentais. Estas técnicas devem fornecer mais efetividade no sistema de progressões da programação do treinamento.


Bibliografia Citada no Texto:
1. Voss, D.E., Ionta, M.K., Myers, B.J. Proprioceptive Neuromuscular Facilitation: Patterns and Techniques 3ª ed. 1985.

2. Cook, G. Baseline Sports Fitness Testing. In: Foran, B. High Performance Sports Conditioning. Human Kinetics. 2001: Pág. 19-47.

3. Saliba, V., Johnson, G., Wardlaw, C. Proprioceptive Neuromuscular Facilitation. In: Basmanjian, J. Nyberg, R. Rational Manual Therapies. 1993.

4. Prentice, W. E., Voight, M. I. Techniques in Musculoeskeletal Rehabilitation. 2001.

5. Cook, G., Fields, K. Functional Training for the Torso. Strength and Conditioning Journal. 19:2; 14-19. 1997.


Usei de alguns auxílios, além da contribuição do amigo Leandro Giacometti, para não falar asneira nos comentários (ou ao menos tentar), aí está.

Bibliografia Pesquisada para os Comentários:

- Tratado de Fisiologia Médica: Guyton e Hall 11ª ed. 2006.

- PNF. Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva: Um Guia Ilustrado. Susan Adler, Dominiek Beckers, Math Buck 2ª ed. 2007.

- Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva: Manual do Curso Básico - Níveis 1 e 2. International Proprioceptive Neuromuscular Facilitation Association - IPNFA. 2013.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva: O Fundamento do Treinamento Funcional - Parte 1

Cumprindo com o prometido na última publicação, aí está um artigo escrito pelo Lee Burton, um dos criadores do já célebre FMS - Functional Movement Screen e que será um dos palestrantes da 2ª edição do Summit Internacional do Movimento.
Tive o prazer de conhecer o Lee Burton pessoalmente no mesmo evento ano passado, e além de um baita profissional é um cara bem acessível, até arrisquei algumas perguntas e umas trocas de idéias pré e pós palestras dele (é, eu enchi o saco do cara mesmo).
Neste artigo ele dá informações a respeito de algo de que sempre ouvimos falar, mas que é muito mais profundo do que nos ensinaram nos bancos acadêmicos - A Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva - FNP. Ou como é mais frequentemente chamada: PNF, do original em inglês Proprioceptive Neuromuscular Facilitation.
Também tive o prazer de fazer os 2 primeiros módulos do curso de formação em PNF com a presidente da Associação Internacional de PNF Rebecca Butler e com o instrutor assistente Leandro Giacometti (os dois foram fora de série) e pude entender um pouco mais a fundo essa valiosa ferramenta.
Decidi dividir essa adaptação em 2 partes afim de facilitar a leitura dos amigos, deixei para a 2ª parte a descrição das técnicas de PNF e de algumas de suas diagonais.
Espero que apreciem.
Grande abraço a todos.


Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva: 
- O Fundamento do Treinamento Funcional -
Lee Burton

O treinamento funcional tem sido utilizado como parte do aumento da performance e do condicionamento físico há anos. Parece ter se tornado mais popular no final dos anos 80 e início dos anos 90, quando evoluimos dos equipamentos tradicionais de eixo fixo para movimentos e habilidades fundamentais. Indivíduos como Gary Gray e Vern Gambetta parecem ter sido quem lideraram essa mudança de pensamento em como deveríamos estar treinando nossos atletas e clientes. Como ocorre em toda mudança de pensamento, existe alguma controvérsia em como treinamento funcional é definido, no entanto, a fundação deveria ser baseada em melhora do movimento em geral. Para que o corpo funcione apropriadamente deveria haver coerência entre os sistemas muscular, articular e neural.

Quando olhamos o treinamento de movimentos, temos que ter uma apreciação dos fundamentos que criam movimento. É importante que alguns dos princípios básicos sejam incorporados no treinamento como um todo afim de ganhar e manter uma mecânica apropriada de movimentos. O foco do treinamento funcional é melhorar o movimento e movimentos apropriados são baseados no equilíbrio entre mobilidade e estabilidade. Este equilíbrio requer uma comunicação proprioceptiva eficiente entre articulações e músculos (N.T: os famosos proprioceptores são órgãos sensoriais que estão constantemente abastecendo o sistema nervoso central com informações a respeito da posição do corpo, ângulos articulares, grau de estiramento e tensão muscular e uma infinidade de outras coisas mais). Se não há esse equilíbrio entre mobilidade e estabilidade os padrões de movimento serão disfuncionais. As disfunções podem muitas vezes serem relacionadas com a ruptura do sistema neuromuscular (N.T: Creio que aqui o autor se refere em ruptura em termos de uma comunicação ineficiente entre os proprioceptores e o sistema nervoso central). Melhorar todo esse sistema deveria então criar movimentos mais efetivos. Com a finalidade de melhorar a efetividade do sistema neuromuscular em coordenar movimento, deveriam ser utilizados conceitos da Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva - FNP -.(N.T: Muitas vezes vemos a sigla PNF que vem do nome original em inglês: Proprioceptive Neuromuscular Facilitation, nesse texto também utilizarei a sigla PNF já que muitos dos cursos dados aqui no Brasil sobre o tema, também se utilizam da sigla do nome original em inglês).

As técnicas de PNF estão por aí desde o final dos anos 30 e início dos anos 40, quando um médico neurologista chamado Herman Kabat começou a utilizar técnicas proprioceptivas em indivíduos mais jovens com paralisia cerebral e outras condições neurológicas. Ele descobriu que ao estimular segmentos distais, os proprioceptores de segmentos mais proximais tornavam-se estimulados. O propósito era criar e melhorar movimento em áreas onde o sistema neurológico tinha sido comprometido. Suas técnicas eram baseadas nos princípios de irradiação de Sherrington, inervação recíproca e inibição¹. Estes princípios descrevem ações rítmicas e reflexivas que levam à movimentos coordenados.

PNF usa o sistema proprioceptivo para facilitar ou inibir a contração muscular. Uma das pioneiras no uso dessas técnicas, Dorothy Voss, definiu isto como um método de promover ou acelerar a resposta do mecanismo neuromuscular através da estimulação dos proprioceptores¹. Os músculos precisam trabalhar sinergisticamente afim do movimento ocorrer. Isto requer que os músculos tenham a habilidade reflexa de contrair e relaxar com a finalidade de desempenhar movimentos básicos. Movimentos fundamentais como agachar, dar uma passada (N.T: do original em inglês "Lunge", o que aqui no Brasil chamamos de afundo, avanço, etc.) são padrões do PNF que dependem da habilidade do corpo de criar e controlar mobilidade e estabilidade de maneira efetiva. Quando estes movimentos se tornam disfuncionais, frequentemente isto pode ser rastreado a uma ruptura no sistema proprioceptivo do corpo, levando os músculos a tornarem-se inibidos ou facilitados em determinados momentos. Isto acaba causando uma incapacidade de criar o equilíbrio entre mobilidade e estabilidade, melhorar este equilíbrio é a base do treinamento funcional.

Um problema que muitos profissionais estão enfrentando atualmente é o de que indivíduos ativos estão perdendo a habilidade de desempenhar movimentos fundamentais básicos. Movimentos fundamentais como agachar, dar uma passada ou alcançar tem se tornado menos eficientes devido a hábitos ruins, treinamento inadequado e/ou lesões (N.T: Creio que com esse "e/ou" o Lee Burton faz uma relação entre o treino inadequado e o aumento do risco de lesões), fazendo com que os músculos posturais e motores primários tornem-se menos efetivos em desempenhar suas tarefas. Estes problemas tem levado indivíduos a criarem compensações, com o sacrifício de mobilidade e/ou estabilidade afim de completar um movimento ou tarefa.
Por exemplo, uma pessoa com limitações de mobilidade nos quadris irá sacrificar estabilidade na coluna lombar afim de conseguir agachar profundamente ou fazer um avanço. É importante que esses padrões compensatórios sejam resolvidos antes de direcionar o foco ao treino de força ou potência.

É importante que antes de prescrever técnicas de PNF se tenha uma apreciação de que suas técnicas são projetadas para corrigir movimentos fundamentais. Ao analisarmos movimentos fundamentais antes, podemos ter um parâmetro para determinar que movimento é mais disfuncional. A "Análise de Movimentos Funcionais" (N.T: Uma adaptação para o português de Functional Movement Screen, o já bem conhecido FMS) é uma ferramenta que pode ser utilizada para fornecer uma compreensão de qual padrão de movimento é mais deficiente². Uma vez que a deficiência tenha sido identificada, o próximo passo é determinar se é resultado de uma disfunção de mobilidade ou estabilidade. Isto irá permitir uma maneira mais efetiva de implementar e de fazer progressões das técnicas de PNF. Se os movimentos fundamentais não melhorarem, então as técnicas escolhidas podem não ser as mais benéficas (N.T: Ou o padrão escolhido para correção não é o que deveria ser abordado em primeiro lugar. Dentro da filosofia do FMS existe uma hierarquia a ser respeitada no momento de analisar qual padrão deveria ser corrigido em primeiro lugar, isto no caso de se identificarem mais de um padrão a ser corrigido, claro). Indicações ao uso do PNF dependem grandemente do resultado desejado. Muitas vezes o PNF é usado para aumentar flexibilidade, força e coordenação quando existem deficiências nestas respectivas áreas. Acredita-se que a educação e o reforço de repetidos padrões de PNF aumenta a coordenação enquanto promove estabilidade articular e controle motor³. Esta mesma filosofia deveria ser incorporada durante o treinamento funcional afim de influenciar efetivamente a melhora do controle motor.

Existem princípios comuns que deveriam ser utilizados quando forem desempenhadas técnicas de PNF.
O primeiro é ter um completo entendimento dos objetivos que se está tentando alcançar com a técnica. Portanto, é importante definir um parâmetro de movimento para que se possa determinar qual técnica é a melhor opção para resolver a disfunção (N.T: Obviamente o parâmetro de movimento que o autor advoga é o FMS - Functional Movement Screen). Segundo, dicas verbais e visuais são cruciais para produzir a resposta neuromuscular apropriada durante a atividade. O profissional do exercício deve se colocar na posição mais efetiva para que possa usar um posicionamento que lhe permita ter uma mecânica eficiente na aplicação das técnicas. Por último, os segmentos distais devem ser facilitados primeiro para permitir que ocorra uma irradiação apropriada através do corpo, que é um dos conceitos mais fundamentais do PNF.

PNF é dividido em 2 áreas, técnicas de fortalecimento e alongamento e padronização. O objetivo final é melhorar padrões de movimento, então a progressão de alongamentos e fortalecimentos básicos para padrões é muito importante. Estabelecer mobilidade adequada de um músculo e uma articulação deve ocorrer antes de fortalecer um movimento e/ou padrão afim de criar uma facilitação neuromuscular efetiva. Assegurar-se de que a mobilidade é suficiente irá permitir uma transição mais eficiente para o treinamento funcional. Se a mobilidade não está estabelecida, poderão surgir compensações durante o treino funcional. No entanto, certas técnicas de fortalecimento são recomendadas sob condições terapêuticas afim de sustentar e influenciar a contração muscular.

O método PNF é projetado para ter a máxima resistência através da amplitude de movimento dos padrões primitivos. A articulação inicia na sua amplitude de movimento mais forte e prossegue até a mais fraca. PNF incorpora padrões de movimento em massa que são diagonais e espirais por natureza e que frequentemente cruzam a linha média do corpo. Tarefas cotidianas e habilidades atléticas, desde pegar uma garrafa de água até chutar e arremessar se utilizam naturalmente de movimentos espirais e diagonais.



Dentro de mais uns dias já ponho no ar a segunda parte para os amigos.

Bibliografia Citada no Texto:
1. Voss, D.E., Ionta,M.K., Myers, B.J. Proprioceptive Neuromuscular Facilitation: Patterns and Techniques  3ª ed. 1985.

2. Cook, G. Baseline Sports Fitness Testing. In: B. Foran. High Performance Sports Conditioning. Human Kinetics. 2001: Pág. 19-47.

3. Saliba, V., Johnson, G., Wardlaw, C. Proprioceptive Neuromuscular Facilitation. In: Basmanjian, J. Nyberg, R. Rational Manual Therapies. 1993.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Summit Internacional do Movimento - 2ª Edição


Buenas chê, esta é uma chamada para um baita evento que ocorrerá em março em Fortaleza.
Tive o prazer de participar da primeira edição em 2013 e foi uma grande experiência, poder conviver de perto com referências em nosso campo de atuação não tem preço, especialmente para caras como eu que não tem condições de ir aos Estados Unidos (visto negado é fogo tchê).
Então creio que temos de louvar a iniciativa de pessoas que trazem estes profissionais às terras tupiniquins.
O Summit Internacional do Movimento ocorrerá em Fortaleza de 14 a 16 de março, temos algumas novidades este ano, como a certificação do Vipr (não me peçam para explicar o que é, descobrirei no evento), além de uma mesa redonda entre os três palestrantes (o que achei deveras interessante) Lee Burton, Michol Dalcourt e Chuck Wolf.
Aqui o link para inscrição: L3 Treinamento e Eventos
Quero ver se consigo postar artigos dos participantes do evento nas próximas semanas.
Aqui está programação do evento:







Abraço aos amigos.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Treinamento de Saltos: Mais do que apenas vertical

Abrindo o ano de 2014.
Peguei este artigo do site strengthcoach.com, assim como muitos outros publicados neste espaço, aos que não são membros recomendo que o façam, além dos artigos, webinars (seminários online), biblioteca de vídeos, o fórum do site é realmente muito bom, e não custa tanto assim.
O tema desta vez é a pliometria, nos arquivos existe outro bom artigo escrito sobre este assunto por Mike Boyle chamado Treinamento Pliométrico aos que quiserem dar uma conferida.
Boa leitura gurizada.




Treinamento de Saltos: Mais do que apenas vertical
Andy Twellman


Nos anos em que tenho treinado atletas na Train 4 The Game(N.T: O nome é um trocadilho do número "4 = four" e da palavra "para = for". Em português ficaria algo como: Treine Para o Jogo) frequentemente nos encontramos focados em como ajudar nossos atletas a saltar mais alto.

Ao final de cada fase nós os testamos, a fim de ver o quanto melhoraram no salto vertical e invariavelmente o salto melhora e todos ficam felizes. Assim era até começarmos a ver vídeos de lesões no basquete, aí começamos a perceber que talvez podíamos estar perdendo uma peça do quebra cabeças.

O que estávamos fazendo era produzir resultados, mas percebemos que a despeito de nosso sucesso em ajudar os atletas a saltar mais alto, podíamos ainda assim fazer melhor, tanto em termos de performance como de prevenção de lesões.

Nessa época, a maioria de nossos atletas jogava vôlei ou basquete, então analisamos como eles jogavam. Olhamos como saltavam e como se moviam. Vimos que às vezes tinham de saltar 2 ou 3 vezes seguidas, com somente um breve contato dos pés entre os saltos. Frequentemente, o jogador que o fizesse mais rápido vencia a batalha.

Também olhamos como eles "carregavam" seus corpos antes de saltar (N.T: Da termo “load”. No sentido da contração excêntrica feita antes do salto para se aproveitar da energia elástica armazenada a fim de saltar mais alto. O uso do conhecido Ciclo Alongamento-Encurtamento. Esse "carregar" é chamado muitas vezes de contramovimento). 

Às vezes, o salto era precedido por uma grande quantidade de flexão de tronco e balanço dos braços, outras vezes o tronco permanecia bastante ereto e os braços estendidos acima da cabeça.

Mais interessante ainda, notamos que os atletas raramente aterrissavam de maneira suave com os pés alinhados, da maneira que os ensinávamos a fazer. Parecia que eles estavam mais preocupados com a bola do que com a aterrissagem. Às vezes eles aterrissavam em dois pés, às vezes em um só. Às vezes aterrissavam no mesmo local de onde haviam saltado, mas frequentemente aterrissavam em outro lugar qualquer. Havia vezes inclusive, que os braços permaneciam acima da cabeça em busca da bola no momento do pouso, ao invés de irem para trás.

O que começamos a perceber, era que saltar mais alto e de maneira mais eficiente era uma parte importante do jogo, mas que o jogo era bem mais complicado do que isso. Eles precisavam ser capazes de saltar com a vantagem mecânica da flexão do quadril e do balanço dos braços, mas também precisavam ser efetivos quando saltavam (e aterrissavam) em desvantagem mecânica.

Algumas variáveis a serem consideradas quando avaliarmos as demandas de salto em um esporte:

1. Ação dos braços: Às vezes balançando; outras vezes estão acima da cabeça; alcançando algo em rotação.

2. Duração da fase de amortização.

3. Distribuição do peso corporal na saída do solo: 1 perna x 2 pernas.

4. Planos do salto: No lugar, para frente, para trás, rotacional, etc.

5. Distribuição do peso corporal na aterrissagem: 1 perna x 2 pernas.

6. Direção da atenção. (N.T: Relacionado a onde está o foco de atenção do atleta ao saltar: No adversário, na bola, na aterrissagem, etc.).


Nesta época, treinávamos quase sempre sem ação de braços ou apenas com o balanço dos braços para trás durante o contramovimento (N.T: Usei o termo carregar anteriormente, que seria a tradução mais literal da palavra usada pelo autor: load. Aqui usamos o termo contramovimento, também usado pelos americanos, para designar a já mencionada contração excêntrica feita antes do salto, para se aproveitar da energia elástica armazenada: o Ciclo Alongamento-Encurtamento).

Também focávamos em uma aterrissagem silenciosa, suave, em uma ou duas pernas, permitindo ao joelho e quadril flexionarem, a fim de ajudar a dissipar forças e criar estabilidade. 

No entanto, começamos a suspeitar que além de melhorarmos sua habilidade de saltar de uma variedade de posições, poderíamos também ser capazes de prevenir algumas das lesões na fase de aterrissagem inerentes à prática esportiva, se fizéssemos alguns acréscimos ao programa de treinamento.

Claramente a parte superior da cadeia cinética tinha um grande impacto na parte inferior e vice-versa. A mensagem que captamos ao ver os vídeos, era a de que raramente durante uma competição o foco de atenção das ações motoras era direcionado ao salto em si.

Ao invés disso, vimos que o salto era influenciado pela posição e direção da bola, de outros jogadores e outras variáveis que mudavam constantemente. Essas variáveis requeriam um constante ajuste corporal. O que percebemos foi que, ao invés de passarmos todo o tempo treinando nossos atletas para saltar e aterrissar de uma determinada maneira, poderíamos ser mais bem sucedidos se os ensinássemos a saltar e aterrissar de várias maneiras diferentes.

Desta forma, quando o jogo requeresse que eles se ajustassem, eles seriam capazes de se ajustar. As consequências por não ter a capacidade de se ajustar às demandas do esporte de maneira eficiente já encerraram muitas carreiras esportivas.


Entre na matriz de jumps, hops e leaps. 

(N.T: Deixei os nomes em inglês mesmo para facilitar, até para que pesquisem outros vídeos a respeito e pela a tradução ser muitas vezes complicada, então é melhor deixar no original. O artigo que citei na abertura, escrito pelo Mike Boyle, trata bem do tema nomenclatura. Nomenclatura é um tópico muitas vezes confuso, como a dúvida que tenho entre leaps e bounds, os 2 sendo classificados como saltando de 1 pé e aterrissando no pé oposto. Uns chamam de um jeito, outros de outro).

Saltando a partir de 2 pés e aterrissando em 2 pés, de um pé para o mesmo pé, de um pé para o pé oposto, ou até partindo de 2 pés e aterrissando em 1, ou saindo de 1 pé e aterrissando em 2, todas as possibilidades são cobertas.

Adicione a isso diferentes ações de braços (N.T: Alcançando ou balançando, no mesmo plano de movimento que o salto ou em plano diferente do salto) e de repente tem-se uma enorme caixa de ferramentas a sua escolha.

A melhor parte disso é que baseado em quem é o atleta e quais as demandas do esporte que ele joga, provavelmente precisaremos usar apenas algumas partes da matriz. Você também terá a flexibilidade para progredir cada atleta de maneira inteligente, à medida que ele ganha a mobilidade e estabilidade necessária para controlar seu corpo. 

A mensagem que fica é: Ao analisar mais de perto a biomecânica requerida pelo esporte praticado pelo atleta, se pode adicionar com sucesso alguns componentes que irão ajudar a melhorar a performance e diminuir o risco de lesão. 


EXEMPLOS DE VÍDEOS

1 - Matriz de Jumps (salta em 2 pés e aterrissa em 2 pés, em todos os planos).



2 - Matriz de Hops (salta em 1 pé e aterrissa no mesmo pé, em todos os planos).



3 - Matriz de Leaps (salta em 1 pé e aterrissa no pé oposto, em todos os planos).



4 - Matriz de Jumps-Hops (salta em 2 pés e aterrissa em 1 pé, em todos os planos).



5 - Jumps (com deslocamento).

Estes são exemplos de como se mover pelo espaço enquanto salta, ao invés de permanecer no mesmo lugar. Pode ser feito em qualquer direção, dependendo de seus objetivos.


6 - Jumps-Hops-Leaps com direcionamento dos braços. 

Exemplos de como incorporar os braços, isto muda a forma como os membros inferiores e o tronco interagem com o solo. Alguns direcionamentos de braços serão mais "funcionais" do que outros, dependendo do esporte praticado. (N.T: Interessante notar no vídeo que nem sempre a direção do salto em si e do movimento dos braços estarão em sincronia, ou seja, no mesmo plano de movimento).


7 - Jumps-Hops-Leaps com bola de basquete.

Exemplo de como uma bola de basquete pode ser usada como um direcionador (N.T: Drive em inglês, quem direciona o movimento) para o resto do corpo enquanto estiver saltando.

(N.T: Assim como no vídeo anterior, nem sempre a direção do salto em si e do movimento das mãos segurando a bola estarão em sincronia, ou seja, no mesmo plano de movimento).


8 - Jumps-Hops-Leaps com reação.

Exemplos da mecânica do salto sendo afetada pela atenção do atleta. O corpo precisa reagir de acordo com a direção da bola. Às vezes a bola vai na direção da passada (N.T: Do salto em si), às vezes não. O implemento, a altura, direção e grau de dificuldade podem ser modificados, a fim de se adaptar às necessidades de cada atleta.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Entendendo e Treinando a Flexão do Quadril

Este é um artigo escrito por Mike Boyle há um bom tempo atrás, mas que ainda nos serve, e muito. Acho que é uma boa pedida para encerrarmos bem o ano de 2013.
Como de costume inseri um bando de figuras e alguns vídeos que não existiam no artigo original, acho que facilita o entendimento dessa adaptação para o português que fiz.
Desejo um baita final de ano a todos os amigos.


Entendendo e Treinando a Flexão do Quadril
Mike Boyle

Uma postagem recente em meu website me fez perceber que uma resposta curta a uma questão complicada não funciona. Alguns de meus leitores parecem pensar que todo o barulho recente a respeito de um músculo psoas fraco ou com falta de ativação pode ser apenas modinha. Eu discordo veementemente.

Penso que o meu conhecimento aumentado a respeito da biomecânica da flexão do quadril é uma das coisas mais valiosas que aprendi nos últimos 5 anos. O problema do entendimento da flexão do quadril em geral e da ação do músculo psoas em particular, é o uso genérico do termo "flexores do quadril" aplicado a 5 músculos diferentes, 4 dos quais tem braços de alavanca marcadamente diferentes do músculo psoas. Preciso admitir que, como a maioria dentro da nossa profissão, não fazia distinção entre o grupo dos flexores do quadril. Todos estes músculos pareciam trabalhar juntos para fletir o quadril, e para mim, naquele tempo, era o que importava. No entanto após a leitura do trabalho da fisioterapeuta Shirley Sahrmann, mudei minha idéia com relação ao tema, assim como mudei de ideia em relação a vários outros músculos por causa de seu trabalho.

A visão que Sahrmann compartilha em seu livro "Diagnosis and Treatment of Movement Impairment Syndromes" (N.T: existe uma versão traduzida deste livro: "Tratamento e Diagnóstico das Síndromes de Disfunção Motora"), explica muitas das lesões enigmáticas ocorridas no campo da preparação física, especialmente as lesões musculares do quadríceps. A chave para entender o movimento de flexão do quadril, vem de analisar as alavancas anatômicas dos músculos envolvidos. Existem 5 músculos que são capazes de assistir na flexão do quadril:

Tensor da Fáscia Lata


Reto Femoral 
(distinguindo que é um membro do grupo do quadríceps e um flexor do quadril)


Ilíaco


Sartório


Psoas Maior e Psoas Menor 
(N.T: psoas maior e menor, creio que a cada vez que o autor mencione psoas, se refira aos 2: psoas maior e psoas menor)




3 desses músculos possuem algo em comum, 2 são muito diferentes.

Isso soa um tanto clichê, mas o segredo está nas diferenças, não nas similaridades. O tensor da fáscia lata, reto femoral e sartório tem inserção na crista ilíaca.
Tensor da fáscia lata, reto femoral e sartório e suas inserções na crista ilíaca
(N.T: no texto Coach Boyle cita as inserções dos 3 músculos acima na crista ilíaca, como visto na foto o reto femoral não se insere exatamente na crista iliaca e sim na espinha ilíaca ântero-inferior. O sartório tem a fixação proximal na espinha ilíaca ântero-superior, na vizinhança do tensor da fáscia lata. Neumann,D.A. 2005).

Isto significa que todos estes músculos são capazes de realizar a flexão até o nível do quadril. Isso é simplesmente uma questão de princípios mecânicos das alavancas (N.T: Referindo-se portanto ao fato de, por terem os pontos de fixação mencionados, estes músculos são capazes de realizar a flexão do quadril até os 90º). O psoas e o ilíaco são diferentes.


O psoas tem sua origem na coluna lombar inteira e o ilíaco na fossa ilíaca, a parte interna do osso ilíaco. Isto cria duas diferenças:

1 - O psoas age diretamente na coluna. Possivelmente como estabilizador para o ilíaco e possivelmente como flexor do quadril.

2 - O psoas e o ilíaco são os únicos flexores do quadril capazes de trazê-lo acima de 90º.

No caso destes 2 músculos serem fracos ou terem problemas de ativação, o fêmur até pode mover-se acima do nível do quadril (N.T: 90º), mas não pela ação do psoas e do ilíaco, ao invés disso, o movimento ocorre pelo impulso gerado pelos outros 3 músculos (N.T: tensor da fáscia lata, reto femoral e sartório).
Com posse deste conhecimento, acredito que o que sabemos de dores nas costas, estiramentos nos flexores do quadril e estiramento do reto femoral é expandido drasticamente.
Antes de discutirmos lesões específicas, primeiro analisemos como avaliar a função dos músculos psoas e ilíaco. O teste que Shirley Sahrmann usa é bem simples:

Em uma posição unipodal, agarre um dos joelhos, puxe-o até o peito e então solte a perna:
- Incapacidade de manter o joelho acima de 90º por 10 a 15 segundos indica um psoas ou um ilíaco fracos (N.T: ou com algum tipo de problema de ativação)
(N.T: Notar que assim que ela libera a perna, o fêmur já começa a descer e com o passar dos segundos ele desce ainda mais, revelando uma falta de ativação e/ou fraqueza do psoas e/ou do ilíaco).

 Outros sinais de fraqueza ou falta de ativação:
- Cãibras no tensor da fáscia lata.
- Uma inclinação posterior, como uma tentativa de compensação.
- Grande inclinação pélvica para direita ou esquerda.
- Queda da perna, parando por volta de 90º (N.T: como visto no vídeo).

Todos estes, sinais indicam que o atleta ou cliente está tentando compensar a fraqueza ou sub-atividade de alguns músculos (N.T: no nosso caso, o ilíaco e o psoas). A cãibra no tensor da fáscia lata é um caso clássico de dominância do sinergista. Um músculo geralmente tem cãibras quando tenta encurtar a partir de uma posição desvantajosa. Com o quadril acima de 90º, o tensor já está encurtado e é incapaz de produzir a força necessária para sustentar uma posição a partir de uma alavanca desfavorável. A tentativa resulta nas cãibras, assim como ocorre com os isquiotibiais no exercício de ponte quando os glúteos tem problemas de ativação (N.T: Se os glúteos tem problemas de ativação, os isquiotibiais assumem a tarefa de extensão do quadril a partir de uma alavanca desfavorável a eles. Algo muito comum de se ver em iniciantes). 
Os mesmos efeitos são vistos frequentemente quando se tenta fazer um hanging knee up, (N.T: Optei por deixar o nome original em inglês, hang knee up, creio que seja aquele exercício de elevação dos joelhos enquanto se está pendurado em uma barra), (que é um exercício que nunca usamos por sinal, já que ensina os clientes/atletas a compensarem), só que agora a cãibra ou estiramento ocorre no reto femoral
Ponte bilateral


Hang knee up

Se o avaliador estiver preocupado com o fato de o avaliado ser habilidoso em compensar, desenvolvemos um teste melhor, que inclusive tem se tornado nosso exercício favorito. O teste foi desenvolvido pela treinadora Karen Wood:

- Peça ao cliente ou atleta para ficar de pé com um pé sobre uma caixa que ponha o joelho mais alto do que o quadril (uma caixa de 60 cm funciona bem para a maioria). Com as mãos acima ou atrás da cabeça, tente levantar o pé da caixa e sustentar por 5 segundos. Incapacidade de levantar ou sustentar, é indicativo de fraqueza do psoas e/ou ilíaco. Pode-se adicionar resistência e usar o teste como um exercício, borrachas podem ser usadas para aumentar a dificuldade.

É importante notar que qualquer teste que tenha como objetivo avaliar o psoas, é invalido se a posição do quadril for menor que 90º de angulação, isto porque os outros flexores do quadril estarão com uma posição favorável de alavanca e isso influenciará no teste.

Entendendo a contribuição funcional única do psoas e do ilíaco, ilustra como um músculo fraco ou sub-ativo pode ser um fator nas dores nas costas ou estiramentos no quadríceps. Com relação a dor nas costas, incapacidade de flexionar o quadril acima de 90º irá frequentemente fazer com que haja a flexão da coluna lombar, dando a ilusão de flexão de quadril. Observe como muitos de seus clientes/atletas irão imediatamente flexionar a coluna lombar quando forem instruídos a trazerem o joelho em direção ao peito (N.T: referindo-se ao teste, que foi mostrado no primeiro vídeo). Não há uma distinção clara entre trazer o joelho até o peito e trazer o peito até o joelho. A tentativa de trazer o joelho até o peito, acima do nível do quadril, força o indivíduo a usar ou tentar usar o psoas e o ilíaco. Se eles forem incapazes de fazer isto, uma ou todas estas 3 coisas acontecem:

1 - O atleta/cliente irá flexionar a lombar e levar o peito até o joelho. A primeira vista isto pode parecer ser a mesma coisa (N.T: do que levar o joelho até o peito), mas sob a perspectiva de dores nas costas, não poderia ser mais diferente. Flexão da coluna lombar estará levando a degeneração discal. Aqueles indivíduos que substituem o movimento do quadril pelo movimento da coluna lombar, terão dores nas costas.

2 - O atleta/cliente usará o tensor da fáscia lata para fletir o quadril. Neste caso este indivíduo irá se queixar de estiramentos de baixo nível na região do tensor da fáscia lata. Este é o resultado da sobrecarga de uso de um sinergista, e irá alimentar uma dominância sinergística do tensor da fáscia lata, levando a ainda mais disfunção no psoas e no ilíaco. Isto é algo já clássico em nossos atletas de hóquei no gelo, que utilizam muito uma postura em flexão.

3 - O atleta/cliente usará o reto femoral para criar a flexão do quadril. Este é o misterioso estiramento no quadríceps visto em velocistas e atletas de futebol americano durante o teste de 40 yard dash (N.T: deixei o nome em inglês mesmo, por não saber a melhor tradução. É um teste de corrida de 40 jardas, aproximadamente 36,57 metros, que mede velocidade e principalmente aceleração já que a distância é curta). Neste caso, a etiologia é a mesma do exemplo anterior só que agora o culpado é o reto femoral e não o tensor da fáscia lata. É digno de nota que: A maioria das lesões musculares do quadríceps são limitadas ao reto femoral (o único multiarticular dos 4 músculos). A dor geralmente se localizará perto do ponto de inserção  do reto femoral no quadríceps, mais ou menos no ponto médio da coxa.

O psoas e o ilíaco, representam para a parte anterior do quadril o que o glúteo máximo representa para a parte posterior. Um glúteo máximo fraco causará uma dominância sinergística dos isquiotibiais e a extensão lombar compensando pela extensão do quadril. Isso levará à dor nas costas, dor anterior no quadril (este é outro ponto de Shirley Sahrmann: o uso dos isquiotibiais como extensores primários do quadril, muda o braço de alavanca do fêmur e pode causar dor na parte anterior da cápsula articular do quadril), e estiramentos dos isquiotibiais. No lado oposto, um psoas com problemas de ativação irá causar dor nas costas a partir da flexão ao invés da extensão (como o glúteo), estiramentos do tensor da fáscia lata e do reto femoral.

A chave para a prevenção de lesões e reabilitação, é um entendimento sólido de anatomia funcional. Precisamos parar de repetir os erros do passado e começar a perceber que ainda temos muito a aprender sob a perspectiva da anatomia e da biomecânica. Fico pasmo de ver o quão pouco de anatomia eu realmente sei quando olho um pouco mais fundo. Uma das melhores coisas que li nos últimos 3 anos é a declaração de Shirley Sahrmann: "quando um músculo é estirado, a primeira coisa a fazer é olhar para um sinergista fraco ou com falta de ativação".

Quando analisamos as lesões, as merdas não apenas acontecem, elas acontecem por uma razão que é governada pelas leis da física e pela anatomia funcional.