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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Compreendendo Forças de Impacto

Esse artigo é uma adaptação de outra das palestras da Emiliy Splichal, recentemente adaptei outro artigo dela, falando sobre os tipos de calçado adequados a diferentes perfis e situações, aos que quiserem conferir: 


Para os que quiserem ler este artigo no original em inglês: Understanding Impact Forces.


Entendendo Forças de Impacto
Emiliy Splichal

Cada vez que o corpo entra em contato com outra estrutura, ele encontra forças de impacto. Estas forças podem ter uma influência na eficiência do movimento, risco de lesões, na marcha e na saúde dos membros. 
Nesse artigo vamos ver especificamente as forças de impacto que o corpo encontra através do pé, iremos aprender:

  • A magnitude de forças de impacto que o corpo encontra durante atividades comuns, como caminhada, corrida e saltos.

  • Como o corpo sente forças de impacto.

  • Como o corpo mantém as articulações e os tecidos moles seguros quando encontra grandes forças de impacto.

  • Os fatores que contribuem para as forças de impacto lesivas mais comuns, como fraturas de estresse e dores nas canelas (N.T: Síndrome de tensão tibial, síndrome de estresse tibial, etc. Conhecida popularmente por canelite).



Forças de impacto experenciadas durante atividades diárias

Cada vez que o pé atinge o solo, o corpo encontra forças de impacto. Quando caminhamos, estas forças de impacto ficam entre 1 - 1,5 vezes o peso corporal. Quando começamos a correr, isto aumenta para 3 - 4 vezes o peso corporal.




















Para atividades mais balísticas como saltos ou aterrissagens em alta velocidade, o corpo suporta forças de 10 ou mais vezes o peso corporal. Ginastas suportam mais de 18x o peso corporal em forças de impacto quando fazem alguns movimentos.

Como se pode ver, a magnitude de forças de impacto mesmo em atividades diárias comuns pode ser bastante grande. Não pense em administração de forças de impacto como algo somente para atletas de elite. Este é um importante tópico para a saúde e performance de qualquer um, independente da idade e nível de condicionamento.



O que acontece quando o corpo entra em contato com o solo

Quando seu pé entra em contato com o solo, ele encontra uma força de impacto. Na verdade, o corpo percebe essas forças de impacto como vibrações. Estas vibrações são captadas por milhares de terminações nervosas na pele. Cerca de 80% dos receptores na sola do pé são sensíveis à vibração.
Cerca de 80% dos nervos da sola do pé são sensíveis à vibração

Quando se trata de administrar e prevenir lesões que são causadas por forças de impacto, como fraturas de estresse ou síndrome de tensão tibial, a frequência destas vibrações torna-se um fator muito importante. 



Estas vibrações têm uma frequência entre 15-20 hertz, significando que elas entram no corpo em menos de 50 milisegundos. O corpo portanto, deve ser capaz de absorver estas forças adequadamente em 50 milisegundos.



Como exatamente o corpo absorve estas forças de impacto?

É uma crença comum que estas vibrações são absorvidas em articulações ou através de contrações excêntricas. Mas de acordo com a teoria de Sintonia Muscular introduzida pelo Dr. Brenno Nigg (N.T: Muscle Tuning Theory em inglês. Resumindo é uma teoria que diz que regulamos a resposta muscular às forças de impacto com o solo a cada passo, a fim de minimizar as vibrações que passam através dos tecidos dos membros inferiores. Aos que quiserem ler um pouco mais a respeito, confiram: Nigg, 2001 e Nigg e Wakeling, 2001), o corpo na realidade absorve e amortece vibrações através de contrações isométricas. Quando os músculos contraem isometricamente, a pressão intracompartimental da parte inferior da perna e do pé aumenta, o que amortece as vibrações. 


Todos músculos e tecidos moles vibram em uma certa frequência. Tecidos moles não gostam de vibrar, então os músculos contraem isometricamente para parar as vibrações. 


Então onde essa energia vai parar? Ela é armazenada dentro dos tecidos conectivos, especificamente nas fáscias e tendões, como energia potencial. Essa energia é então liberada como energia cinética no contramovimento (N.T: Na fase excêntrica dos movimentos há o armazenamento de energia potencial, embora haja discussões do local exato onde essa energia é armazenada e quais os locais de armazenamento de energia, para na fase concêntrica haver a liberação de energia, fazendo com que o movimento seja mais eficiente).





O que pode dar errado

Lesões através de forças de impacto podem ocorrer em qualquer combinação de alguns processos. Vamos ver cada caso.




A) As forças de impacto são percebidas incorretamente

A pesquisa do Dr. Benno Nigg descobriu que o corpo pode armazenar e lembrar de informações a respeito de forças de impacto que ele experencia após apenas 3 ou 4 passos. O corpo é capaz de lembrar as características da superfície e velocidade da caminhada e a magnitude das forças de impacto que ele experencia.



Esta informação ajuda a determinar a resposta correta para um movimento seguro e eficiente.


Uma vez que a informação vem dos nervos na pele, na sola do pé, os calçados podem ter um bastante influencia na habilidade de perceber com precisão as forças de impacto. Esta é a razão pela qual os calçados têm um impacto tão grande na maneira como caminhamos, corremos e nos movemos em geral.


Quando mais acolchoado é o calçado, mais grossa a sola ou mais rígido, mais ele irá alterar a percepção das forças de impacto. Tenha cuidado quando for selecionar um calçado ou recomendar um à seus clientes, já que ele pode ter um sério impacto na eficiência do movimento, risco de lesões e saúde do pé.

Calçados com sola rígida ou grossa alteram a informação recebida pelo pé a partir do solo


Já andar descalço, fornece ao corpo informações precisas a respeito do solo

A maioria das pessoas acredita que adicionar mais amortecimento ao tênis diminui a magnitude das forças de impacto com que o pé se depara. Enquanto que isto até pode soar correto, na verdade o oposto é verdadeiro. O amortecimento no tênis na realidade distorce a percepção dos receptores na sola do pé e como eles detectam vibrações, isso acaba levando a um impacto maior. Opte por menos amortecimento no calçado para minimizar o risco de lesão.



Superfícies inconsistentes também podem impedir o corpo de perceber com precisão a chegada de forças de impacto, fazendo com que fique difícil julgar qual resposta dar à essas forças.



Em um de seus livros, o Dr. Benno Nigg relata o tempo em que foi contatado pelo Cirque du Soleil em Los Angeles. Os artistas da trupe de repente começaram a sofrer com lesões como tendinite do aquiles e fasciite plantar. A companhia não conseguia descobrir o porque disso estar ocorrendo.



Por que artistas profissionais, altamente bem condicionados e habilidosos, de repente começaram a se lesionar fazendo movimentos que estavam habituados a realizar?



Dr. Nigg começou a investigar e finalmente encontrou o problema. 

As lesões começaram a acontecer após a companhia ter comprado um palco novo para seu centro de performance. Embaixo deste palco novo havia um monte de vigas.



Estas vigas mudaram a frequência de vibração da superfície acima, criando uma superfície inconsistente. Onde quer que houvesse uma viga, havia uma frequência de vibração diferente. Quando os artistas aterrissavam em uma parte do palco que estivesse sobre uma viga, eles experenciavam uma força de impacto com uma frequência diferente do que se eles aterrissassem em uma parte do palco que não estava acima de uma viga

As vigas de suporte faziam com que partes do palco ressonassem em diferentes frequências

Uma vez que as vigas estavam embaixo do palco, os artistas não tinham ideia se estavam aterrissando em uma parte do palco que tinha ou não vigas de sustentação. Eles então não tinham como perceber com precisão ou antecipar quais vibrações receberiam na aterrissagem.


E isto estava causando todas as lesões.

Dr. Nigg pediu que retirassem as vigas e se certificou de que todo palco tivesse a mesma frequência, para que onde quer que os artistas aterrissassem, eles fossem capazes de perceber e antecipar as vibrações que seus corpos receberiam.



Uma vez que isso foi feito, as novas lesões que os artistas estavam enfrentando cessaram.



B) A absorção de forças de impacto não ocorre rápido o suficiente

Uma vez que forças de impacto entram no corpo em menos de 50 milisegundos, as fibras de contração rápida são responsáveis por criar contrações de amortecimento. No entanto, as fibras de contração rápida as vezes levam até 70 milisegundos para alcançar o seu pico de contração máxima.



As forças de impacto precisam ser antecipadas

Isto significa que a reação somente dos músculos de contração rápida não é confiável, já que sua resposta simplesmente não é rápida o bastante. As forças de impacto precisam ser antecipadas.


Como mencionado anteriormente, o corpo automaticamente aprende a fazer isso quando encontra uma nova superfície ou realiza um movimento novo. O corpo é capaz de relembrar informações à respeito de novas superfícies e a magnitude de impacto das forças que experencia após apenas 3 ou 4 passos. Isso ajuda a criar a resposta antecipatória correta. 


De maneira prática, isso significa que se você está fazendo um movimento novo ou usando uma superfície nova, dê um tempo para o corpo captar as informações que ele necessita para criar a resposta antecipatória correta antes de fazer esses movimentos em uma nova superfície à uma velocidade mais alta ou com mais força.




C) Contrações não são fortes o suficiente para amortecer forças de impacto

Se os músculos não conseguem gerar tensão suficiente para criar a necessária pressão intracompartimental para amortecer as vibrações de forças de impacto, estas vibrações acabam sendo transmitidas através dos tecidos moles até o osso, causando todos os tipos de problemas. Assim é que, essencialmente, começamos a nos deparar com síndromes de tensão tibial e fraturas por estresse.


Isso também pode ser causado por fadiga. Quando nos tornamos fadigados, existe um acúmulo de ácido lático nos músculos. O que muda o pH do ambiente onde os músculos contraem. Quanto mais ácido está o ambiente, mais difícil se torna para o músculo contrair. Isso reduz o pico da pressão compartimental e a quantidade de amortecimento, tornando maior portanto, a probabilidade para as vibrações serem transmitidas aos tecidos moles e osso.


Desta forma é que a fadiga pode levar à lesões por sobrecarga excessiva (N.T: Overuse em inglês) e como isto é algo importante a se levar em consideração quando se trata de minimizar lesões relacionadas à forças de impacto. 




D) Não armazenar energia potencial apropriadamente

Quer estejamos caminhando, correndo, saltando ou dando cambalhotas, o corpo precisa armazenar energia das forças de impacto, antes que possa liberá-la sob forma de energia elástica no contramovimento. 



Por exemplo, durante a caminhada, 50% da energia que retorna quando o pé atinge o solo é armazenada e liberada pelo tendão calcâneo. A habilidade do tendão de armazenar e liberar energia potencial elástica é diretamente relacionada à sua habilidade de rapidamente enrijecer os músculos da parte inferior da perna e do pé.



Este recuo elástico é chamado de efeito catapulta e é a fundação da eficiência do movimento. Você pode reconhecer isto em atletas que podem se mover bem e parecem que têm uma "mola" nos pés.


Quando se trata da habilidade do corpo de armazenar energia potencial, precisamos prestar atenção à saúde do tecido conectivo. O tecido conectivo precisa ter o equilíbrio perfeito entre rigidez e elasticidade.



Quando envelhecemos, vamos perdendo as ondulações no tecido fascial (N.T: Formação das fibras de colágeno, em um padrão ondulado), o que causa uma redução na elasticidade. A fáscia então, pode começar a apresentar adesões.

À esquerda, um tecido fascial saudável com a orientação das fibras formando uma "tela ou grade". Além disso, aparecem as fibras de colágeno com sua formação ondulada. À direita, o tecido fascial que não é estimulado por tensão mecânica. A orientação das fibras desenvolvem um padrão irregular, além disso, as fibras de colágeno perdem sua formação ondulada. Dr. Robert Schleip - fascialnet.com

Problemas de saúde associados com a idade, incluindo diabetes e outras comorbidades também podem alterar a saúde de nossos tendões, fazendo com que percam a elasticidade e tornem-se mais rígidos (de uma maneira negativa).


Preste atenção à saúde do tecido conectivo. Nesse caso, a participação de uma nutrição apropriada, o uso de técnicas de autoliberação miofascial, exercícios de mobilidade e o treinamento usando saltos podem ajudar.





O impacto do tipo de superfície

Outro fator importante quando se pensa em reduzir lesões causadas por forças de impacto, é a superfície com a qual o pé entra em contato (N.T: Aos que quiserem conferir um artigo sobre o assunto, adaptado há algum tempo, aí vai: Demanda da Corrida em Diferentes Superfícies).

A maior parte de nós passa grande parte do tempo em contato com superfícies duras

Ao contrário de outras superfícies mais macias como a grama ou areia, superfícies artificiais como cimento ou mármore, não são boas em absorver forças. Quando o pé atinge uma superfície dura como cimento, as vibrações na realidade criam um efeito de rebote e voltam em dobro para o corpo.


Por isto que se mover em superfícies duras é tão pesado para o corpo. Elas criam mais estresse e fadiga nos tecidos conectivos e ossos, contribuindo para o surgimento de lesões.
Superfícies mais macias são mais fáceis para o corpo

Infelizmente, na sociedade de hoje em dia, as pessoas passam a maior parte do tempo caminhando em superfícies pavimentadas de prédios, calçadas e no asfalto. Combine isto com calçados rígidos e acolchoados e o resultado é um grande preço que nossos corpos têm de pagar.

Uma vez que queremos minimizar risco de lesões e cuidar dos tecidos conectivos e dos ossos, a superfície em que estamos nos movendo é um fator a se levar em consideração.
***


Aprenda mais maneiras de minimizar lesões causadas por forças de impacto na palestra completa de Emily Splichal

Este artigo foi adaptado da palestra chamada Entendendo Forças de Impacto (N.T: Understanding Impact Forces). Na palestra completa, você irá aprender as estratégias que ela usa para ajudar seus clientes a evitarem lesões causadas por forças de impacto, incluindo:


  • O que Emily recomenda para seus pacientes calçarem para melhorar suas habilidades de lidarem com forças de impacto, quando eles têm síndrome de tensão tibial ou quando correm em superfícies duras, como o concreto.

  • Como se ajustar à novas superfícies e quanto tempo você deveria dar ao corpo para se acostumar à superfícies não familiares.

  • Suplementos para manter a saúde dos tecidos conectivos (vitais para armazenar energia elástica durante o movimento).

  • Não pode mudar o calçado e nem a superfície de treino, mas ainda assim quer minimizar a chance de lesões causadas por impacto? Como alterar o movimento para diminuir essas forças.

  • Uma estratégia simples que ela usa com seus clientes antes de eles porem seus tênis, para melhorar a habilidade do pé de obter uma informação precisa do solo.
Para ouvir a palestra de Emiliy Splichal, aqui o link: Understanding Impact Forces.

Para mais sobre treinamento descalço, aqui o link: Evidence Based Fitness Academy

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Demandas da Corrida em Diferentes Superfícies

Artigo que faz umas boas considerações a respeito de algo que todos nós profissionais do movimento julgamos saber, as diferenças das demandas impostas ao corpo ao se correr em diferentes tipos de superfície. Artigo bem rápido e fácil de ler, então vale aquela conferida.

Link do artigo original: Comparing the Biomechanical Demands of Different Running Surfaces.

Abraço aos amigos.


Comparando as Demandas Biomecânicas da Corrida em Diferentes Superfícies 
Dominique Stasulli


Trail Running
Muitos corredores são, por natureza, criaturas de hábitos regulares. Correndo sempre nas mesmas rotas, com a mesma frequência de passadas, com os mesmos calçados, no mesmo horário do dia. Correr sempre as mesmas 4 milhas (N.T: 4 milhas = 6,43 km) ao redor da cidade significa que a superfície nunca muda. Essas criaturas de hábito podem dizer onde se encontra cada armadilha, arbusto, buraco na estrada ou rachadura na calçada. Se isto lhe soa familiar, aproveite esta oportunidade para aprender como explorar novas superfícies pode ser benéfico para fazer com que qualquer corredor se torne mais forte biomecanicamente.


Antes de comparar terrenos é importante considerar alguns fatores relativos a como o corpo reage com o solo. É de conhecimento comum que a corrida tem um impacto no sistema musculoesquelético. Massa corporal, forma e a superfície da corrida irão desempenhar um papel em quanto de impacto resulta no corpo. Em um sentido mais literal, o corpo "colide" com o solo com uma força que é 4-5 vezes o peso corporal do corredor a cada passo, mais ou menos 180 vezes a cada minutio (McMahon & Greene, 1979). 



A quantidade de energia necessária para o balanço das pernas em uma passada é otimizado ao manter a fase de apoio curta (quando um pé está em contato com o solo) e empurrando o solo de maneira reativa (Bosch & Klomp, 2005). Músculos reativos essencialmente reciclam energia entre as fases como uma função da elasticidade muscular e em última análise diminuem o custo energético em longo prazo. Tempo de contato com o solo mais longos tem um custo energético maior e menos reciclagem. É exigido do corpo absorver o choque com o solo, que reverbera através de tendões e músculos com um recuo elástico, permitindo que se inicie o movimento para frente desejado, como se as pernas tivessem molas.



Não somente as pernas agem como molas naturais, mas o solo também pode se comportar dessa forma. O grau de deformação ou "retorno" que uma superfície possui, irá determinar a velocidade de transferência entre o pé e o solo. Superfícies mais duras possuem um retorno de energia mais rápido, permitindo ao corredor cobrir a distância de maneira mais rápida. Superfícies mais maleáveis resultam em um tempo de contato mais longo, como resultado de suas propriedades flexíveis, que é diretamente relacionado com uma taxa de transferência mais lenta e portanto, o corredor cobre uma distância menor e de maneira mais lenta. As pernas do corredor, que funcionam como molas, precisam ajustar a rigidez de acordo com a deformidade do terreno. Isto é necessário para permitir uma duração adequada do contato do pé com o solo para produção de velocidade, e dessa forma o menor custo de demanda de oxigênio. Em outras palavras, o corpo necessita uma flexibilidade média para ser economicamente eficiente.



Pense em um solo duro como uma mola rígida e um solo mole como uma mola frouxa; isto deve ajudar com a visualização enquanto esmiuçamos as diferentes superfícies.

Asfalto

Asphalt
Pode parecer que  a superfície mais rígida forneceria a plataforma mais estável para empurrar o solo e portanto, permitir a maior velocidade. No entanto, o asfalto é tão denso que deminui a habilidade das pernas ganharem força vertical a partir de seu retorno (Freehery, 1986). Na realidade, o impacto do asfalto sobrepõe a energia elástica de retorno das pernas, resultando em uma neutralização do retorno positivo. Enquanto os músculos estão ocupados amortecendo a força do impacto, a estrada rapidamente retorna a energia elástica de volta para a perna, os músculos estão mau preparados para recebê-la. O corpo tenta diminuir o impacto desacelerando a fase de aterrissagem; este movimento de freio resulta em um tempo de contato mais longo e menores velocidades. Interessante é que se verificou que o concreto tem a maior força de impacto e o menor retorno entre todas superfícies, devido a sua densidade (Feehery, 1986). Mais, uma análise de ossos e articulações em um estudo em que ovelhas caminharam no concreto por um período de 2 anos, resultou em placas de osso subcondral e osso cortical espessados, resultando em um osso menos elástico e pouca capacidade de absorção de choques (Feehery, 1986). Em termos clínicos, este é um caso clássico de osteoartrite prematura. Pelo bem de suas articulações, quando possível, é melhor atingir o pavimento ao invés da calçada a fim de reduzir o impacto.


Grama

Grass
As superfícies de grama são comparáveis ao asfalto em termos de retorno de energia elástica na forma de propulsão vertical (Feehery, 1986). O ligeiro "retorno" da superfície e sua textura requerem que as pernas trabalhem mais para alcançar o mesmo esforço exercido no asfalto, embora sem o impacto. Isso faz com que a grama seja uma grande ferramenta de treinamento para atletas buscando construir força de membros inferiores, enquanto mantém os riscos de lesão baixos. Desde que a grama seja bem cuidada e o terreno razoavelmente nivelado, alguns atletas se aventuram a correr descalços, recebendo o bônus extra do fortalecimento do pé e tornozelo. Um corredor com tornozelos frágeis deveria ter cautela quando treinar na grama, incorporando gradualmente o treino descalço na sua quilometragem semanal.




Areia e Neve
Sand
Ambos, tempo de contato com o solo e comprimento da passada aumentam em superfícies muito maleáveis, como areia e neve, com a consequente diminuição da velocidade do corredor (McMahon & Greene, 1979). A neve pode ser escorregadia e frequentemente vem acompanhada com estradas congeladas, fazendo com que não sejam aconselháveis para corredores iniciantes. Areia fofa fornece uma sessão de exercícios de forte resistência para os músculos das pernas, especialmente as panturrilhas, com mínimo impacto nas articulações. Se o corredor for propenso à lesões no tendão calcâneo, é melhor evitar correr descalço e de preferência correr na areia mais compacta e menos fofa, perto da beira do mar por exemplo. A inclinação das dunas na praia, especialmente perto da água, é algo a se considerar também; corra em ambas direções igualmente a fim de evitar desenvolver desequilíbrios musculares, ou simplesmente encontre uma praia de superfície mais plana. Correr na areia definitivamente fornece uma sessão de exercício com alto gasto energético e rápido desenvolvimento de fadiga, por isso é melhor usar essa superfície para corridas de curtas distâncias.


Trilha

Leaves
Corrida em trilhas é um grande desafio, oferecendo variedade no terreno e no cenário para quebrar a monotonia dos quilômetros. A demanda da superfície irá depender da trilha. Trilhas largas de terra são tipicamente planas e livres de obstáculos. Enquanto que trilhas de via única mais estreitas são tipicamente para corredores mais avançados, que desejam um percurso que exija mais agilidade. A natureza da trilha requer que o corredor se adapte rapidamente à rochas, raízes, cursos d'água, curvas fechadas, animais inesperados e árvores/galhos caídos. O solo em si é de baixo impacto. No entanto, um clima adverso pode fazer com que a corrida adquira condições perigosas; deve se ter cuidado ao final do outono ou após uma tempestade de inverno, onde folhas e neve podem esconder buracos, rochas e raízes (N.T: Se refere à América do Norte)

Correr em trilha usa uma variedade de movimentos horizontais e oblíquos para alcançar uma colocação ideal do pé o que significa que o recrutamento de músculos estabilizadores é maior do que uma corrida em linha reta, retardando o início da fadiga nos grandes grupos de músculos das pernas (Farango, 2009). O recrutamento de músculos adicionais significa que a demanda por oxigênio também aumenta, por isso correr em trilha parece mais difícil para o sistema cardiovascular do que em outras superfícies.  A "rotação das pernas" aumenta (N.T: "Leg turnover" é o termo usado no original) já que é necessário uma alta reatividade e ajustes calculados precisam ser feitos para se manter a mesma cadência através do percurso; isto ajuda com o desenvolvimento da velocidade e eficiência da passada dentro e fora da estrada. 


Esteira

Running on a Treadmill
A esteira é quase sempre a primeira escolha do iniciante pela corrida mais segura e controlada. Um estudo verificou que as forças na superfície plantar do pé, uma medida de risco de lesão, foi mais baixa na corrida em esteira (Hong, Wang, Li & Zhou, 2012). Devido à assistência da esteira rolante no movimento durante a fase do contato do pé (fase de apoio do pé) na passada da corrida, uma velocidade constante pode ser alcançada com menor força propulsiva e menos impacto comparado com qualquer outra superfície (Hong et al., 2012) (N.T: Em relação ao impacto, as esteiras mais modernas permitem um impacto ainda mais reduzido, devido a um sistema de amortecimento à ar, em que se pode introduzir o peso do corredor fazendo com que ela regule um sistema de amortecimento individualizado). As superfícies das esteiras rolantes variam conforme a marca e modelo, mas em geral fornecem uma boa superfície para corridas de baixo impacto e para reabilitação de lesões.





Pista

Track and Field Running Surface
Popular nos circuitos cobertos de atletismo universitário e profissional, pistas "preparadas" levam a fama de conter uma quantidade otimizada de rigidez para produzirem um pico de retorno de energia, e portanto, maiores velocidades. Verificou-se que uma superfície que é 2 a 4x mais rígida do que a perna do corredor pode produzir o maior retorno de energia elástica (Feehery, 1986). Estas pistas, como as das universidades de Harvard e Yale são tipicamente construídas de madeira com cobertura de borracha e superfície inclinada para um efeito centrífuga, produzindo alguns dos tempos mais rápidos do mundo.


Considerando tudo, a variedade de superfícies disponíveis, têm a função de fornecer benefícios para qualquer estratégia de melhora que o corredor esteja buscando. Mesmo que a velocidade não seja um foco específico do plano de treinamento, a forma como estas superfícies sobrecarregam o corpo de diferentes maneiras, adicionam um desafio único para o corpo enfrentar e também servem como uma forma de recuperação para músculos sobrecarregados. 

O ponto de partida é simples:
Novas superfícies fornecem uma oportunidade para músculos acostumados sempre ao mesmo tipo de esforço experenciarem uma sensação diferente ("sobrecarga" diferente). Onde há uma sobrecarga muscular, existe uma confusão muscular que leva à adaptação, acompanhada por uma construção de força. Para todas as criaturas de hábitos arraigados por aí, façam um favor ao corpo: Saia fora da mesma rota batida e busque outros terrenos.



Referências
Bosch, F. & Klomp, R. (2005). Running: Biomechanics and exercise physiology applied in practice (pp.181-188).Maarssen, Netherlands: Elsevier.
Farango, S. V. (2009). Women are naturals for trail running. Triathlon Life, 12(4), 54-55.
Feehery, R. V. (1986). The Biomechanics of running on different surfaces. Clinics in Podiatric Medicine and Surgery, 3(4), 649-659.
Hong, Y., Wang, L., Li, J. X., & Zhou, J. H. (2012). Comparison of plantar loads during treadmill and overground running. Journal of Science and Medicine in Sport, 15(6), 554-560.
McMahon, T. A. & Greene, P. R. (1979). The influence of track compliance on running. Journal of Biomechanics, 12, 893-904.